A Rua Gil Vicente

Antiga Rua da Amargura

 

por José Carlos Vasques

 

Não há conhecimento de que o nome de Rua da Amargura seja anterior ao ano de 1755. Se teve esse nome a partir dessa data, muita amargura teria causado o terramoto de 1 de Novembro. A maior parte das casas teriam caído, a avaliar pelo facto das construções aí existentes serem mais recentes. Não há, tanto quanto se julga, qualquer referência à antiguidade da rua. Na casa com o nº 22 e 24, na sua parte traseira, existe uma placa de pedra com os seguintes dizeres: SENDO. COMIÇARIO. PREVENCIAL. FREI.ZUZE. DE. ALENCASTRE. CE.FES. ESTA. CERCA. E. DURMITORIOS. GOVERNAMDO. ESTE.REINO. O. CONDE. DE. PONTEVEL. O. ANO. DE. 167 (e o último algarismo ininteligível não deixa revelar a data exacta).

Desde logo se coloca a questão acerca das personagens referenciadas na placa. O Conde de Pontevel, D. Nuno da Cunha Ataíde, Governador e Capitão General do Reino do Algarve, foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lagos entre 1671 e 1675, tendo governado o Algarve entre 1653-1655 e 1674-1675. Mandou construir em Lagos as casas da Câmara e abrir um poço de grande utilidade pública. Mandou, ainda, fazer uma muralha que cercava a Igreja da Luz. (Paulo Rocha – Monografia de lagos, págs 122, 123 e 153).

Sobre FREI ZUZE DE ALENCASTRE, tal como está na placa, não foi possível obter informações, o que requer pesquisa mais aprofundada, presume-se estar ligado à família de D.Manuel de Alencastre que foi Governador Capitão General do Reino do Algarve. Faleceu em Lagos e está sepultado sob o coro do Convento das Irmãs Carmelitas, cuja pedra tumular ostenta a seguinte inscrição: Aqui está depositado D. Manuel de Alencastre irmão do Duque d’Aveiro, que faleceu sendo Governador do Algarve. Era 1614. (Paulo Rocha – Monografia de lagos, pág. 109).

Esta pedra encontra-se actualmente na parede lateral, do lado do púlpito.

Conclui-se, portanto, da existência da rua anterior a essa data e pensamos que a mesma seja contemporânea da primitiva ermida de Nossa Senhora da Conceição, cujo nome foi dado ao baluarte (da Conceição) nos primeiros anos de 1500. Mas isto refere-se somente à ermida que deu origem à Igreja de S. Sebastião.

Paulo Rocha, na página 81 da Monografia de Lagos, diz o seguinte: “Em 1490 grassando a cólera em Lagos, reuniram a Câmara, clero, nobreza e povo e erigiram padroeiro de Lagos a S. Sebastião dedicando-lhe a ermida da Nossa Senhora da Conceição e fazendo voto de mandar vir um retábulo para a sua capela.”, “Os fiéis para que Nossa Senhora não ficasse sem ermida edificaram outra na Pedra da Eira, ende em 1554 foi creado o convento das religiosas Carmelitas.” O Convento foi destruído em 1755, resultando a morte de 11 freiras e 11 creadas.”. Mais tarde o convento foi reconstruído não se sabendo se a área ocupada foi maior que a primitiva.

Todo aquele local no cimo da rua talvez tivesse, em tempos recuados, uma configuração diferente. No canto superior da Travessa Gil Vicente foram encontrados vestígios de construções anteriores, com paredes muito sólidas, parecendo ter ali existido um subterrâneo com, aproximadamente, três metros de profundidade. Terá sido ali o anterior convento?

Uma parte do convento, depois da reconstruído parecia confrontar com a rua. Há ainda a destacar a construção do Teatro Gil Vicente, que devia estar totalmente construído em 1867, a avaliar por aquilo que está escrito na Monografia (pág. 282): “A nove de Fevereiro de 1867 o accionista António José da Cunha e outros pediram uma reunião da assembleia geral do Teatro Gil Vicente, a fim de ser cedido o referido Teatro para bailes de máscaras. Estes foram os primeiros bailes públicos de máscaras que houve em Lagos e com o produto deles fez-se a caixa do teatro.”. E foi o Teatro Gil Vicente que deu o nome à rua.

Sabe-se que este teatro foi construído, em parte, sobre as ruínas do convento das irmãs Carmelitas e ainda numa parte do quintal do mesmo convento. Quem conheceu o teatro pode descrever que este foi erguido por cima das celas das freiras, área de construção robusta, em abóbada, onde durante muitos anos habitaram várias pessoas pobres que só muito mais tarde foram desalojadas, aquando da ampliação da Escola Industrial Victorino Damásio.

Num corredor existente entre a zona das celas e casas e a rua, trabalhava um cordoeiro que fazia cordas novas e reciclava as usadas.

Lagos, tem sido vítima da sua enorme tolerância e passividade, que muito a tem prejudicado: assim foi com a perda desse belíssimo teatro e assim é com o estado deplorável do que resta do convento que devia ter sido, em devido tempo, considerado como património municipal ou do Estado. Teimando todas as Câmaras, que pela autarquia têm passado, em ignorar a história do convento, a partir de 1834.

Em 1911, portando durante  a vigência da 1ª República, a Câmara Municipal comprou ao proprietário do convento a área da portaria do mesmo, para aí construir a Escola Industrial.

O terreno onde foi construído o teatro era pertença dum particular como se deduz daquilo que se transcreve da Monografia de Lagos (pág. 282): “A 3 de Junho de 1862 foi aforada a parte do extinto convento das freiras necessária para a construção deste teatro. O aforamento foi de 9$000 reis anuais e nas noites de receita um camarote para o senhorio e sua família. O foro elevar-se-há a 14$000 réis quando o prédio deixar de servir para o fim aforado.”.

Rua Gil Vicente

 

Entre o teatro e a rua havia um pátio espaçoso, ao ar livre, por onde se acedia ao referido teatro, aí paravam as viaturas dos espectadores. Do lado direito situava-se a horta, que fora das freiras, e respectivo poço, possuindo este, próximo do nível da água, um subterrâneo que se dizia dava para o interior do convento. O quintal era cultivado pelo proprietário do convento, o sr. João Manuel de Almeida, conhecido pela alcunha “O Surdo”.

Da história do convento pouco está escrito, existindo uma referência breve na obra do Dr. Calapez Correia “O Termo de Lagos no Reinado dos Filipes”, mas referindo-se a período pré-terramoto de 1755.

Por tradição se dizia que as freiras cantavam no seu coro durante largas horas do dia, cultivando a arte musical pois a vida monástica a isso as levava, também inspiradas pelas crises que o convento atravessou. É caso para recordar que “quem canta, seus males espanta!”.

No dia 28 de Maio de 1823 “O 1º Batalhão de infanteria nº 2, em número de 580 praças desfilou pela rua da Amargura, rua Augusta, rua de S. Sebastião e saiu pela Porta do Postigo (Monografia de Lagos, págs. 244 e 245). Assim, se constata que a rua tinha o nome de “Amargura” em 1823.

Em 1824 foi projectada uma rua para ligar a rua Gil Vicente à rua do Passo (hoje Rua Professor Luís Azevedo). O projecto só foi concretizado em 1925, recebendo a nova rua o nome de Combatentes da Grande Guerra. Com esta obra, a cerca das freiras ficou mais pequena.

O que aconteceu ao que restou da construção da Escola Industrial, à área do convento, e pasme-se, à própria igreja de Santa Maria da Misericórdia (que depois do terramoto fora emprestada ao clero), constitui um dos casos gritantes de golpe baixo, do poder secular e temporal sobre o património público e colectivo, refiro-me à apropriação indevida desse património por parte da Igreja (diocese). E tudo isto foi obra de um eclesiástico de Lagos, acolitado por dois funcionários públicos. São casos violadores da Lei, que denotam total abuso de poder, inequívoca prepotência com resultado doloso para o património público.

O teatro Gil Vicente foi desactivado em 1938, encerrando definitivamente as suas portas, começando a arruinar-se. Quem entrasse no Teatro Ginásio de Lisboa tinha a sensação de se encontra no Teatro Gil Vicente, de Lagos. Possuíam o mesmo traço arquitectónico. Lagos, em tempos passados, foi considerada uma das cidades com grande dinâmica cultural, nomeadamente no que respeita às artes de palco, pois apesar da sua população numericamente reduzida, esta terra teve quatro teatros e diz a história que nas suas igrejas também se faziam representações teatrais.

A Igreja das Freiras é um dos casos tristes das igrejas e ermidas de Lagos que pouco a pouco vão caindo, em muitos casos abandonadas em consequência, também, da falta de culto. Mas foram, e são, monumentos que fazem parte da história local.

Antes da Igreja das irmãs Carmelitas entrar em agonia, durante vários anos saía e e regressava a essa igreja a procissão do senhor morto, percorrendo os Passos da Via Sacra, existentes em vários locais da cidade. Passava pela Rua Gil Vicente. Era uma procissão intencionalmente triste. Vestidos de roupagens pretas, destacando-se as mulheres com parte do rosto encoberto por mantilhas, também, pretas, e segurando nas mãos as velas cuja luz desenhava, na porção de rosto descoberto, sinistras formas intermitentes. O conjunto destes factores formava um ambiente quase irreal no contraste que criava esta procissão de sugestivas formas luminosas quando percorriam as ruas escuras da cidade. A banda da Filarmónica 1º de Maio acompanhava a procissão, fechando o cortejo e executando a marcha fúnebre. Era o remate final do cenário lúgubre. Na frente, um homem envergando opa, de braço pendido, segurava a matraca, esse estranho instrumento de sonoridade arrepiante. Não era mais do que uma tábua com peças de ferro articuladas que se executa volteando a mão para um e outro lado. Era uma espécie de aviso da passagem da procissão.

Na sacristia da igreja ficava exposto em seu esquife, esculpido de madeira, o Cristo morto, envergando um manto mas com os pés desnudados para receber veneração sob a forma de beijos que homens (poucos) e mulheres, na sua maioria, iam depositando. Descuidadas no excesso de batons mesmo em época quaresmal, lá iam depositando as marcas avermelhadas nos pés do Senhor que mão pressurosa tinha que limpar com paninho apropriado, de tempos a tempos.

Na ocasião não faltava o sermão, e a figura de serviço era um padre de apelido Vaz. Nessa época Lagos atravessava uma crise, que não seria de fé mas de pobreza, faltando alimento a muita gente de fraca condição social. Estávamos no período da II Guerra Mundial. Os sermões tornavam-se, por vezes, contundentes para as classes laboriosas, exaltando os benefícios do regime instituído, que toda a gente percebia não contribuir em nada de bom para as classes desprotegidas. Muitas vezes, um sussurro cruzava os ares dentro e fora do templo, em desaprovação pelas palavras proferidas.

A igreja das Carmelitas é um templo de excelentes condições acústicas, como não existia outro na nossa cidade. O coro das freiras é bastante espaçoso e que atesta a sua utilização, certamente bastante intensa, por parte das monjas. Na rua Gil Vicente, num prédio forrado a azulejos, esteve instalada uma associação de Trabalhadores da Terra e do Mar ou mesmo um seu sindicato. Foi essa associação que num dia 1º de Maio (ainda em ano a determinar) organizou uma marcha que em plena ditadura do Estado Novo, protestou em frente à ao edifício dos Paços do Concelho, contra as difíceis condições de vida das classes trabalhadoras, a falta de trabalho e outras reivindicações de carácter social. As palavras de ordem proferidas eram PÃO E TRABALHO! No cortejo realizado exibiram vários dísticos e bandeiras pretas (as bandeiras da fome).

Houve a intervenção da GNR e duma força do regimento aqui sedeado que acabou por dispersar os manifestantes. Espalhou-se que o administrador do concelho silenciou, com o uso da força, os justos protestos dos trabalhadores, o que porém não correspondeu à verdade, embora ele tenha também enfrentado a manifestação. Alguns dos que se manifestaram foram, mais tarde, presos e outros ausentaram-se para fora do país.

A Censura, esse instrumento do regime, silenciava toda a informação e mesmo hoje, só com muito trabalho, e sobretudo com o testemunho de alguns dos que participaram, se pode fazer essa história.

No mesmo prédio onde hoje está a Residencial Gil Vicente funcionou o Clube Recreativo “O Capricho” onde se realizavam abrilhantados bailes mormente pelo Carnaval. Nesse tempo os clubes recreativos e desportivos tinham uma parte activa e dinâmica quando se tratava de celebrar as festividades locais e muitas vezes as receitas revertiam a favor da Santa Casa da Misericórdia de Lagos. Este clube participou numa dessa marchas de protesto popular, por volta dos anos quarenta.

Esta rua nunca foi muito procurada para fixação de estabelecimentos comerciais, todavia durante muitos anos esteve ali instalado um estabelecimento de vinhos de Manuel Rosado Oliveira, conforma consta no Anuário Comercial relativo a Lagos (anos 1920 a 1946). Mais tarde o dito estabelecimento foi tomado por outro comerciante e mudou de ramo, passando a armazém grossista. Hoje tem ramo de artigos diferenciados.

Na rua Gil Vicente, num prédio relativamente novo, o maior da rua, funcionou a Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Lagos, fundada sob o patrocínio do extinto Grémio da Lavoura de Lagos tendo como promotores os capitães Rosado Fogaça, José Francisco Correia e Albertino de Paula Santos e o sargento Joaquim de Sousa Piscarreta e tendo como funcionária, desde a primeira hora, a Srª D. Maria Tereza Cravinho. Hoje, a Caixa de Crédito Agrícola, instalada noutro local da baixa, faz parte activa do sistema bancário existente em Lagos.

A nossa rua, orientada a nascente/poente, começa na Rua Almirante Cândido dos Reis formando um Gaveto com a Rua Professor Luís Azevedo, entronca no fim da sua suave ladeira com a Rua das Freiras, hoje Rua Cardeal Neto, e tem à sua esquerda a Travessa do Mineiro e a Travessa Gil Vicente e à direita a Rua dos Combatentes da Grande Guerra.

Não pode cair no esquecimento o edifício mais importante desta rua, e mesmo da cidade, a Escola Gil Eanes, veículo maior da difusão do ensino e da cultura, que o foi durante largas décadas, desactivada no corrente ano lectivo e substituída por uns caixotes de cores vivas, sem dúvida com melhores condições de conforto, mas situados fora da malha urbana da cidade, praticamente sobre a falha geológica do Porto de Mós, no vale do mesmo nome. Parabéns aos projectistas e aos decisores, por tão arrojada localização.

A ocupação de parte do convento com a Escola foi, inequivocamente, a melhor, a mais produtiva e a mais honrosa utilização que se podia ter dado ao edifício. Entre 1954 e 1960 foram construídas as oficinas da, então, Escola Industrial visando o ensino de diversas profissões técnicas. As obras ocuparam parte da antiga cerca das freiras. Outras ampliações foram também realizadas, ocupando o resto do terreno, incluindo o espaço do antigo Teatro Gil Vicente que para o efeito foi demolido.

A Rua Gil Vicente, com todas estas obras, ficou enriquecida e a frequência de gente nova veio dar uma nova e mais alegre vida à antiga Rua da Amargura.