ÍNDICE DE ARTIGOS

1. Menires Decorados de Vila do Bispo

2. Novos Vestígios à Volta de Currais da Granja - Vila do Bispo

3. Repensar a História de Vila do Bispo

4. Sobre o Topónimo Barão de S. João

 

 

 

por João Velhinho

 


 

Menires Decorados de Vila do Bispo

- Um Apontamento -

 (Excerto de um dos capítulos do livro "Repensar a História de Vila do Bispo", do autor)

 

Vestígios de um passado que importa preservar, os Menires do concelho de Vila do Bispo são uma herança cultural da Pré-História.

Originalmente erectos, os arqueólogos hoje em dia dividem-se quanto à sua função. Se há quem defenda que foram objectos de culto ligados a rituais de fertilidade, outros há, que os consideram marcos de posse de um território nas comunidades Neolíticas.

Outras funções tais como: - a) sinais de orientação na paisagem (para um grupo de menires que formam um alinhamento); - b) observatórios astrais (para um grupo de menires que formam um cromelech); - c) uma função simbólica "axis mundi" (eixo do mundo) "... centro de referência do espaço habitado...por oposição ao espaço desconhecido..." são também defendidas.

 

 

 

"...Um menir é um monumento constituído por um monólito, mais ou menos oblongo, cravado verticalmente no solo e com dimensões muito variáveis. A matéria prima no que diz respeito aos menires portugueses, é constituída exclusivamente por granitos ou rochas granitóides, excepto os do Algarve, nos quais foram sistematicamente utilizados os calcários ou o grés..."  

                                       Manuel Calado 1

 

 

A carência de testemunhos arqueológicos associados aos menires e a falta de um trabalho intensivo de prospecção arqueológica têm dificultado a sua datação.

Se, pela relação encontrada entre menires e vestígios arqueológicos de povoados do Neolítico-final / Calcolítico inicial (por exemplo em Caramujeira / Lagoa), foram inicialmente datados do IV /III milénios a.C. Esta tese tem vindo a diluir-se 2, discutindo-se presentemente uma nova cronologia.

Sobre o assunto registe-se duas opiniões: - a) - "...A obtenção recente de uma data de 14 C, a partir de materiais (conchas) associados a um menir algarvio (Gomes, 1991) veio reforçar os argumentos a favor de uma antiguidade relativa dos menires dentro do fenómeno megalítico em geral, posição que temos ultimamente vindo a defender...(M. Calado, 1990)... "; b) - "... a ordenação coerente dos arqueofactos e a utililização de correlações estatísticas entre varíaveis lógicas indiciam que os monólitos decorados do extremo SW devem ser datados entre finais do VI milénio a.C. e a primeira metade do V milénio a.C. ..." (David Calado 2000).

Desde os finais do século XIX que o pioneiro da Arqueologia no Algarve, Estácio da Veiga comentou da necessidade do estudo e catalogação dos numerosos menires que, à época, constavam existir em todo Reino. Em 1987, um esforço nesse sentido foi feito pelos arqueólogos M. Varela Gomes e Carlos T. Silva com a publicação do " Levantamento Arqueológico do Algarve - Concelho de Vila do Bispo".

Com uma concentração de cerca de 121 menires no concelho de Vila do Bispo, segundo o último trabalho de M. V. Gomes (1991), sabe-se actualmente, fruto de novas prospecções, que este número andará muito próximo aos 300 exemplares.

Os menires possuem formas que podem ser descritas de um modo geral como: - (sub) Cilíndricas, (sub) Cónicas, Ovóides ou simples pedras erectas. São constituídos, na sua maioria, por calcário, ou ocasionalmente por grés (3 exemplares conhecidos na região).

Em Vila do Bispo, os menires que apresentam decorações, são fálicos. Forma a que a pedra erecta só por si dá ênfase. Exibem de comum um cordão em relevo que circunda o topo do menir - que por vezes é duplo - e que é descrito por alguns autores como : - " cintura fálica ".

Sobre a pedra erecta com representação fálica ocorrem quatro outros tipos de decoração em relevo que se distribuem: - A) - verticalmente ao longo do menir, entre o cordão em relevo da cintura fálica e a base; ou B) - caso específico das semi-elipses, em que a distribuição se organiza à volta do cordão da representação fálica. Estas decorações exibem padrões que se repetem noutros menires, apresentando por vezes ligeiras variantes3 . Podem ser ordenadas do seguinte modo:

1) - cadeias de elipses não segmentadas que podem ser: a)- simples (ex. Menir da Figueira, foto: A. 4); b) - duplas (Menir de Raposeira, foto: A.5); c)- separadas nos extremos do eixo maior (Menir da Figueira, foto: A.3).

2) - cadeias de elipses segmentadas que podem ser: a)- simples (ex. Menir do Padrão/Raposeira, foto: A.6). Como variantes são conhecidas elipses segmentadas cujo eixo maior é extremamente alongado (Alto das Barradas/Serra da Borges, foto: A.7) ou "elipses" segmentadas muito próximas ao círculo (Altos da Raposeira, foto: A.8).

3) - semi-elipses à volta dum cordão no topo do menir que podem: a) - contornar todo o cordão em relevo no topo do menir (Padrão 1, foto: A.10); b) - apresentar apenas uma semi-elipse (Norte de Raposeira, foto: A.9).

4) - linhas onduladas que apresentam um número variável de linhas ondeadas (Menir de Padrão/Raposeira, foto: A.11). A representação das linhas onduladas em zig-zag é até à data desconhecida em Vila do Bispo.

Até há pouco tempo tinha-se como uma certeza que em Vila do Bispo cada pedra erecta decorada, para além do cordão circular no topo do menir (correspondente à representação da glande fálica), era apenas decorado com outro motivo simbólico.

Actualmente, fruto de novas prospecções arqueológicas, verificou-se que o fragmento de menir da Pedra Escorregadia - Horta do Garcia-Vila do Bispo revela simultaneamente dois tipos de decorações distintas: uma cadeia de elipses não segmentada (simples) e uma cadeia de elipses não segmentada dupla. O que, nesta fase do conhecimento, em vez de vir confirmar teorias anteriormente estabelecidas, vem lançar novas interrogações.

O Menir da Pedra Escorregadia - Vila do Bispo parece estar inserido num grupo vasto e diferenciado de decorações, que circundam os cromeleques no Monte dos Amantes e fazer parte da sacralidade do lugar durante o Neolítico. Sacralidade que se prolongou nos tempos e deu lugar, na Idade Média, ao centro de peregrinações moçárabes às relíquias de S. Vicente, na Igreja do Corvo, localizado na vizinhança do Monte dos Amantes em Currais da Granja - Granja , onde, nas imediações, o topónimo Mesa da Marinha faz referência à existência anterior de um dolmén cristianizado na região e espaço geográfico, onde alguns menires foram reaproveitados como marcos de propriedade, apresentando inscrições medievais de tipo religioso.

É ainda durante a Idade Média que alguns menires do concelho de Vila do Bispo, como parte integrante da paisagem, são referenciados pelo homem medieval para designar determinados lugares. A toponímia regista os lugares de: Padrão/Raposeira; Padrão/ Figueira; Pedra Branca/Raposeira; Pedralva/ Vila do Bispo; Aspradantas/Raposeira; Pedra Escorregadia/Vila do Bispo.

 

 

Elipses Segmentadas - Variante

 

Através da actualização realizada ao levantamento arqueológico dos monumentos megalíticos em Vila do Bispo, constata-se que a percentagem de menires decorados corresponde a cerca de 25% do total dos menires. Número que é bastante inferior a valores já apontados para outros concelhos algarvios. Em casos específicos como o Monte dos Amantes/Vila do Bispo esta percentagem chega porém aos 31%.

Convém recordar, que estes números não são absolutos, já que se baseiam:

- a) - em menires cujo estado de conservação ronda os 53% de fragmentos, ou seja peças muito mutiladas com menos de metade do menir original.

- B) - que é a face do menir em contacto com o solo, que geralmente se encontra melhor preservada, necessitando de ser exposta para um conhecimento mais exacto do número de decorações existentes, implicando esse trabalho de o auxílio de meios mecânicos (grua) para um estudo mais aprofundado.

Uma outra conclusão do presente trabalho foi verificar que, numa apreciação global, isto é, se não forem consideradas algumas variantes, as decorações nos menires em Vila do Bispo ter-se-ão distribuído de igual forma pelos quatro tipos de decoração aqui convencionados. Não confirmando, na região, a raridade das decorações com: - " ...bandas de ovais adossadas a um cordão que delimita a glande fálica..." (Gomes 1997, p. 161) e constatando-se ainda um ligeiro predomínio das decorações com elipses segmentadas (que pictograficamente fazem recordar um grão de trigo, de cultivo milenar na região), dado que parece não ser significativo, numa primeira abordagem e face a números analisados que se consideram relativos.

 

1 - Menires, alinhamentos e cromlechs, in História de Portugal – direcção de João Medina – Vol. I , pág. 294 - Ediclube.

2 - Cf. M.V. Gomes 1997 pg.169 : - " ...O retomar recente, do estudo das decorações dos menires de Caramujeira (...) fez-nos reconsiderar as atribuições cronológicas genericamente propostas na década de setenta (...) não excluimos a hipótese de alguns menires serem mais antigos que o Neolítico final, datando, designadamente do Neolítico médio...".

3 - A percentagem das variantes a um tipo predominante de decoração, não ultrapassa em geral os 2% do total dos menires decorados . Número que pode dar noção da raridade das mesmas.

 

©JoãoVelhinho/CEMAL

 

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Novos Vestígios à Volta de Currais da Granja

 - Vila do Bispo -

 

por João Velhinho

 

 

 

Apesar da História de Vila do Bispo continuar condicionada a uma má interpretação dos escritos de João B. da Silva Lopes, na « Corografia (1)», continuam a surgir novos vestígios que deitam por terra tudo o que se tem escrito sobre o assunto.

Em Junho de 1999 (2) escrevemos uma pequena notícia sobre as variadas inscrições nos menires à volta de Currais da Granja/ Granja/Vila do Bispo. Afirmávamos então, sobre a possibilidade duma investigação mais aturada revelar novas inscrições. De facto informaram-nos, recentemente, acerca da descoberta de uma nova inscrição nas proximidades da ponte da Granja, localizada no cerro mais elevado da "ilha" de terreno formada pela antiga Estrada EN 125 e o seu novo traçado. Onde, num afloramento calcário, aparecem esculpidos 5 círculos em relevo, inscritos num pentágono(3), semelhantes aos que podem ser encontrados no menir do Cerro do Camacho.

Mais precisamente, a inscrição está localizada a 37º03´28´´N, e 08º55´24´´W. Cada círculo tem de diâmetro 6cm e a inscrição, na totalidade, 20cm de comprimento por 22 cm de altura.

Estas inscrições, de carácter religioso, que podem ser encontradas à volta de Granja, apontam claramente para a existência na região, de um importante centro religioso, em tempos recuados.

Diz a tradição que na origem deste centro religioso estão cristãos Valencianos fugidos no séc. VIII às perseguições de Abderramão I.

Para proteger as relíquias de S. Vicente rumaram para Ocidente, pelo Mediterrâneo , afim de alcançar refúgio nos reinos Cristãos do Norte da Península.

 

Quando da passagem pela, hoje, costa de Sagres terão, certamente, encontrado as mesmas dificuldades em dobrar o "Cabo", que a navegação experimentava à época do Infante (4). À espera de ventos favoráveis para seguir viagem é muito provável que, a bordo, as provisões tenham escasseado. Em terra , à busca de água e alimentos, encontraram uma povoação (Cerro dos Mouros/Granja) com uma igreja Cristã – do tempo dos Rum(5), segundo o geógrafo Al Edrisi – e aí acabam por se estabelecer.

Esta será, certamente, a origem da Igreja do Corvo, a Kanisat al Gurab dos cronistas árabes.

A igreja do Corvo atraiu peregrinos de toda a Hispania. Possuía tesouros muito consideráveis e rendas copiosas das doações em todo o Gharb. Estava situada a 7 milhas (10km) do Cabo do Ocidente (S. Vicente) e tinha como obrigação servir uma refeição aos peregrinos tanto Cristãos como Muçulmanos que a visitavam a caminho da Mesquita (Mesquita/Sagres (6)) onde, acreditavam, que as preces a Alá eram mais facilmente atendidas.

Em 1099 (7), berberes Almorávidas, vindos do norte de África, destruiram a igreja num acto de fanatismo religioso. Mais tarde, D. Afonso Henriques tem conhecimento da existência das relíquias sagradas a Sul, através de cristãos (moçárabes) cativos na batalha de Ourique. Ordena duas expedições (a primeira falha) e, em 1173, as relíquias de S.Vicente são trasladadas para Lisboa.

Em 1189, e durante um breve período, a região de "Vila do Bispo" é conquistada aos Mouros por D. Sancho I. É provável que, neste período, o culto a S. Vicente se tenha reacendido. De concreto, sabe-se que foi um cristão (moçárabe), Garcia Rodrigues (8), quem, algumas décadas mais tarde auxiliou os homens de D. Paio Peres Correia no esforço da Reconquista.

Após 1249 a Igreja do Corvo, ou o que resta dela em Currais da Granja, toma a invocação de Santa Maria (do Cabo) e é constituída como freguesia(9).

Em 1515 D. Manuel doou o lugar e Igreja de Santa Maria do Cabo ao Bispo D. Fernando Coutinho que era já senhor de Aldeia do Bispo, passando o lugar de Santa Maria do Cabo (Currais da Granja/Granja), depois de integrado na Aldeia do Bispo , a ser conhecido também por Aldeia do Bispo.

A inscrição agora descoberta testemunha um marco de propriedade, pertença de monges Franciscanos, quando no século XV , fundaram na região uma Casa com Hospital .

O tempo, os cataclismos naturais, a pirataria e a ambição dos homens encarregaram-se de tornar o Cerro dos Mouros/Granja num descampado que, hoje, encerra páginas desconhecidas da História de Vila do Bispo.

 

1- Contrariamente ao que é vulgarmente afirmado, não é em 1515 que surge a Aldeia do Bispo. As primeiras referências conhecidas à Aldeia do Bispo provêm de cartas régias de D. Afonso IV datadas de 27 Março 1329 e 3 de Agosto de 1353.

2- Inscrições à volta de Currais da Granja/Vila do Bispo – Jornal Maré Alta, Junho 99

3- Pode-se entender o pentágono como símbolo de uma Irmandade/Ordem Religiosa

4-"...Reflectindo como ao Cabo de Sagres vinham e vêm muitas carracas, naus, galés e outros navios pousar, por não acharem tempo de viagem onde acontecia estarem por muitos dias sem acharem nenhuma consolação de mantimentos ...mandei fazer uma vila....". Carta do Infante D. Henrique, 19 Set.1460

5- Possivelmente de origem Tardo-Romana ou Visigótica. Em Currais da Granja são visíveis vestígios de cerâmicas Romanas à superfície do terreno . Estácio da Veiga aponta para o local " povoação extinta ou arrasada " Romana.

6- Nas proximidades a jazida arqueológica de uma extensa alcaria – Catalão.

7- Adeline Rucquoi – História Medieval da Península Ibérica – Editorial Estampa

8- Existem indícios que levam a considerar Garcia Rodrigues como possível habitante da região de "Vila do Bispo" à época do domínio muçulmano.

9- Desta freguesia – Santa Maria (do Cabo) - separou-se em 1464 a Igreja da Bordeira. Cf . Pinheiro e Rosa – Boletim Cultural nº 2 CM de Aljezur. Em 1519 D. Manuel criou o priorado de Sagres, apartando da : -"... Igreja de Santa Maria...donde te ora eram fregueses..." Carta régia de D. Manuel 13 Nov.1519 "

 

 

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Repensar a História de Vila do Bispo

por João Velhinho

 

 

"Chamava-se, noutros tempos Santa Maria do Cabo,

e é bem obscura a sua história antes do séc. xv...

Seria provavelmente este bispo...D. Fernando Coutinho quem deu o nome à Aldeia, depois Vila do Bispo, em que se mudou o primitivo (nome) de Santa Maria do Cabo..."

Nº 107 – Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais – 1962

 

Dois documentos, provam ser incorrecta esta versão da História. Uma carta del rey D. Fernando de 1374 e uma segunda carta de D. Afonso IV1 onde se refere o arrendamento dos: -"...herdamentos que forom de ssam vicente que som em termo da aldeya do Bispo" a 4 moradores no Cabo de S. Vicente.

Esta carta régia, datada de 27 de Março de 1329 (isto é 80 anos, após a tomada definitiva do Algarve aos Mouros) menciona, ao que se sabe, pela primeira vez a Aldeia do Bispo.

Negando assim, definitivamente, a hipótese da Aldeia do Bispo (actual Vila do Bispo) dever o seu nome ao Bispo de Silves, D. Fernando Coutinho (1502/=1538).

Oficialmente, tem sido aceite a versão de que D. Manuel em 1515, de visita ao Cabo de S. Vicente, doou um lugar com algumas casas a D. Fernando Coutinho, tendo este lugar a partir de então, começado a se chamar Aldeia do Bispo.

Ora, o documento de 1329 del rey D. Afonso IV é bastante esclarecedor quanto à antiguidade, da designação e da povoação de Aldeia do Bispo.

Sendo absurdo afirmar, que em 1515, a uma aldeia já existente, se volte a rebaptisar de Aldeia do Bispo.

Todos estes equívocos, se devem, a um parágrafo da obra de Silva Lopes, "Corografia"2 onde se escreve: - "(D. Manuel) fizera mercê da Igreja e logar de Sta Maria do Cabo (ao bispo de Silves)... e por ocasião desta mercê se mudara ao logar o nome chamando-se Aldeia do Bispo".

Este texto, tem sido sucessivamente mal interpretado, desde 1841, por diversos autores que têm atribuído erradamente, como origens de Vila do Bispo a Aldeia de Stª Maria do Cabo.

Em abono da verdade devemos fazer, aqui, duas reflexões:

1 – Silva Lopes apenas afirma, que depois da doação, Stª Maria do Cabo, passou a se nomear Aldeia do Bispo.

2 – A inversa não é verdadeira, isto é, nunca foi dito no texto que a Aldeia do Bispo anteriormente se chamava Stª Maria do Cabo. É uma dedução incorrecta.

No nosso entender são duas aldeias comprovadamente diferentes que a partir de um determinado momento (doação de 1515) se unificam, prevalecendo a designação de Aldeia do Bispo.

A atribuição das origens de Vila do Bispo à aldeia (ou lugar) de Stª Maria do Cabo é, pois, uma invenção sem fundamento histórico, anulada pelo documento de 1329 de D. Afonso IV.

A aldeia de Stª Maria do Cabo é, como anteriormente tentámos demonstrar3, a extinta aldeia em Currais da Granja, da qual existem vestígios nas proximidades de Vila do Bispo.

Foi, Santa Maria do Cabo, uma antiga alcaria árabe e terá tido no seu interior a Igreja do Corvo, o antigo templo dedicado a S. Vicente, lugar de culto e grandes peregrinações durante toda a Idade Média.

A existência de uma igreja em Santa Maria do Cabo é certificada por Silva Lopes.

Eis alguns dos factos que estarão, certamente, nas origens de Vila do Bispo:

1 - Na área delimitada pela Freguesia de Vila do Bispo, os vestígios mais antigos que se conhecem, da fixação do homem à terra, são os do povoado Neolítico em Mirouço/Alto das Barradas (cerca de 5000 a 2700 a.C.).

Os numerosos fragmentos de mó (dormentes) visíveis à superfície do terreno, comprovam ter sido a produção de cereais, o motivo principal, dos primeiros assentamentos humanos na região.

2 - Atraídos pela fertilidade dos solos ter-se-ão também instalado os primeiros colonos romanos. Muitos fragmentos de cerâmica e memórias dum troço de via romana junto à Ribeira das Canas, deixam adivinhar ter existido no local uma grande exploração agrícola (villa).

Uma moeda de Galieno, achada nas proximidades, data esta villa romana do Séc. I d.C..

3 - À Época da Reconquista (cerca de 1249) Vila do Bispo era uma aldeia muçulmana. Confirma-o Estácio da Veiga4 que descreve o achado nas ruas da povoação, de numerosos silos árabes.

4 - Esta aldeia muçulmana dará origem à Aldeia do Bispo, mencionada no documento de 1329 de D. Afonso IV.

5 - Em 1353 D. Afonso IV, por carta régia, retira à Igreja, Bispo e Cabido de Silves a jurisdição "da Aldeia que chamam do Bispo que he no Cabo de Sam Vicente" e incorpora-a no termo de Silves.5

6 - Em 25 de Junho de 1374, por carta régia de D. Fernando, a Aldeia do Bispo é separada administrativa e juridicamente de Silves e integrada na vila de Lagos.6

Em 6 de Setembro de 1374 a Aldeia do Bispo volta a fazer parte do Concelho de Silves (Chancelaria D. Fernando fls. 151v. e 155v.). Porém, em 5 de Janeiro de 1375 D. Fernando concede benefícios comerciais nos produtos adquiridos no "logo do Cabo" (Aldeia de STª Maria do Cabo) como na época em que o lugar era pertença do Concelho de Silves. Deduzindo-se assim que a Aldeia do Bispo e Aldeia de Stª. Maria do Cabo tenham, por essa data, voltado a fazer parte da Vila de Lagos (Cortes, maço 4/#15)

7 - Em Setembro de 1460 o Infante D. Henrique menciona, numa das suas cartas, uma "povoação a légua e meia" do Cabo de Sagres, com poucos recursos para abastecer os navios que aguardavam na costa condições de tempo favoráveis para dobrar o Cabo de S. Vicente. Alguns autores admitem ser esta povoação uma referencia indirecta à Aldeia do Bispo.

8 - Em 1464 a Freguesia da Bordeira foi separada da Aldeia e Igreja de Nossa Srª do Cabo.7

9 - Em 1515, uma povoação situada nas proximidades da Aldeia do Bispo, de nome Santa Maria do Cabo (ou Aldeia de Nossa Senhora do Cabo, como atrás referido) foi anexada à Aldeia do Bispo por doação de D. Manuel.

10 - Em 1519, por carta régia, D. Manuel cria o Priorado de Sagres separando-o da Freguesia de "Santa Maria daldeia do Bispo".

Sabe-se, através de Silva Lopes8 que o lugar de Santa Maria do Cabo possuía uma igreja. Aceitando como certa a data da construção da igreja da Aldeia do Bispo, como "dos fins do século XVI ou princípios do (século) seguinte" 9, concluiremos que a igreja em Santa Maria do Cabo, foi Matriz (sede de Freguesia) das quatro povoações: - Sagres, Santa Maria do Cabo, Aldeia do Bispo e Bordeira.

11 - Em 1575 o fidalgo D. Álvaro de Castro, filho do célebre Vice-Rei da Índia D. João de Castro, acompanhante del-Rei D. Sebastião em viagem ao Algarve, morre no Cabo de S. Vicente e "...o forão enterrar a hu lugar duas léguas do Cabo que se chama aldea do Bispo...". El-Rei D. Sebastião deslocou-se à Aldeia do Bispo a visitar a sepultura do fidalgo10. Ainda, no reinado deste monarca houve planos para que a Aldeia do Bispo fosse fortificada. Divergências com os moradores sobre a porção da Aldeia a ser incluída no recinto fortificado levaram a que o projecto fosse abandonado.

12 - Presume-se que em 1587, durante o ataque de Francis Drake a Sagres, no lugar de Santa Maria do Cabo - designado como Aldeia do Bispo desde 1515 - a igreja foi incendiada11.

Após esta data, já no lugar da Aldeia do Bispo propriamente dito, foi construída uma nova igreja que hoje identificamos como Igreja Matriz de Vila do Bispo.

É interessante referir que esta igreja foi construída fora da povoação. Em 1758, Luís Cardoso, no Dicionário Geográfico descrevia ainda, deste modo, a sua localização: -"...está fora dela (povoação) em muito pouca distancia...". O que parece ser um indício da construção da igreja numa antiga ermida.

13 - Em 1591, com 81 anos, Mor Fernandes vulgo "a migas" viúva de Vicente Fernandes que foi sapateiro, moradora na Aldeia do Bispo, vendedora de "fato feito e coisas de tenda e marçarias" foi denunciada ao tribunal do Santo Ofício pela prática de judaísmo. A intolerância fazia, assim, mais uma vítima. Inquisição de Évora, processo nº 903912.

14 - Em 1600 a Aldeia do Bispo foi descrita por Henrique Sarrão13 na "História do Reino do Algarve", como tendo "outenta moradores; (e) muito boas terras de pão".

O perigo dum ataque de corsários era, na época, ainda uma constante: - "na Torre de Aspa...(vigiava-se) ...todo o ano de dia". Esta torre de vigia da costa tinha, também, como função, segundo testemunho da época, orientar os batedores nas caçadas aos lobos que assolavam a região. Caiu em 1755.

15 - Em 1622 o padre Luís Ribeiro de Carvalho mandou construir, na Aldeia do Bispo, uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Amparo que ruiu com o sismo de 1755 e da qual não restam vestígios. A ermida estava localizada no caminho para o Monte do Cascalhar, no lugar designado, actualmente, por Sítio da Sr.ª do Amparo.

Na igreja Matriz, uma capela instituída pelo capitão Bartolomeu Dias é mencionada num manuscrito da Biblioteca Nacional14, bem como uma outra feita pelo capitão Gregório Lourenço "na hera de 1676".

16 - Em 1631 o padre Alvares Pires cura da Aldeia da Carrapateira é acusado de residir na Aldeia do Bispo distante 2 léguas da Carrapateira onde só ia, 10 a 15 dias durante a Quaresma, confessar os seus fregueses, devido ao medo que nutria pelos corsários. - Arquivo Episcopal de Faro15.

17 - Em 14 de Março de 1633 "...o pároco da Aldeia do Bispo foi denunciado (...) por paroquianos seus, de não se preocupar com a celebração do sacramento do matrimónio, permitindo que muitos casais vivessem amancebados de alguns anos a essa data". - Arquivo Episcopal de Faro16.

18 - Em Junho de 1662, D. Afonso VI faz mercê da Aldeia do Bispo a Martim Afonso de Melo, segundo Conde de S. Lourenço, Senhor de Sagres, com a condição de a elevar a Vila.

19 - Em 6 de Agosto de 1662, Vila do Bispo ganha autonomia, sendo desmembrada da administração da Câmara de Lagos.

Eis, em resumo, alguns dos factos ligados às origens de Vila do Bispo.

Esperamos, com este artigo, poder ajudar de algum modo, a que o equívoco das origens de Vila do Bispo se desfaça e se reponha a verdade histórica.

Em defesa da sua História e do seu Património, Vila do Bispo merece o nosso contributo.

 

IGREJA MATRIZ DE VILA DO BISPO

 

1 - Citada por J.M. Marques – "Descobrimentos Portugueses" - Instituto para a Alta Cultura, 1944.

2 - "Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve" - João Baptista da Silva Lopes, 1841.

3 - "A aldeia de Stª Maria do Cabo e as Origens de Vila do Bispo" - João velhinho – Maré Alta, Out/Nov de 1997.

4 - "Antiguidades Monumentais do Algarve" - Estácio da Veiga, 1886.

5 - "A liderança de Silves na região do Algarve nos séculos XIV e XV" - Alberto Iria, C.M.Silves, 1995.

6 - "A Vila e a Fortaleza de Sagres nos séculos XV a XVIII" - Jordão de Freitas, 1938.

7 - "Revista Espaço Cultural, Nº 2 - C.M. Aljezur" - J.A. Pinheiro Rosa

8 - idem

9 - "A Igreja Matriz de Vila de Bispo" - Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1962.

10 - "Documentos Inéditos para a História do Reinado de D. Sebastião" - Joaquim Veríssimo Serrão, Coimbra 1960.

11 - "Levantamento Arqueológico do Algarve, Concelho da Vila do Bispo" - M.V. Gomes, C.T. Silva, 1987.

12 - "A Cidade e o Termo de Lagos no Período dos Reis Filipes" - F.C. Calapez Corrêa - Ed. Centro Estudos Gil Eanes.

13 - "Duas descrições do Algarve do séc XVI" - Manuel Guerreiro, Romero de Magalhães, 1983.

14 - "Relassão das Antiguidades q se puderão descubrir na Vª do Bpº" - Inquérito da Academia Real da História, 1721.

15 - "A Cidade e o Termo de Lagos no Período dos Reis Filipes" - F.C. Calapez Corrêa - Ed. Centro Estudos Gil Eanes.

16 - idem.

 

 

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Sobre o topónimo Barão de S. João

Hipótese de interpretação

por João Velhinho

 

Contrariamente ao que se possa pensar, o topónimo Barão de S. João não deve a sua origem a um nobre que lhe deu o nome.

Barão vem do árabe Bahr / Bahron1 que significa lagoa.

Em 1873, Pinho Leal na obra “Portugal Antigo e Moderno2 descreve o seguinte fenómeno quando se refere à localização da aldeia de Barão de S. João: - está “...Situada em uma campina que no Inverno se torna sapal...”

A este sapal terão os árabes chamado Lagoa < Bahr < Bahron.

Na faixa que vai de Budens a Bensafrim pode-se ainda hoje, através dos vestígios arqueológicos, constatar a forte presença e a influência muçulmana na actual toponímia.

Veja-se o significado em árabe dos seguintes topónimos: Budens, no século XVI – Burdocem3 = o poço das abluções; Montes de Alvor4 /Budens = Montes do Poço; Matamouros/Burgau (de matamorras =silos); Alcaria5 (B.S.J.) = aldeia; Atalaia6 =  torre de vigia; Cerro do Mouro (B.S.J.), Almádena7 = a mina; Almadaninha = a mina pequena; Almarjões8= pastos, prados; Azóia9 / (B.S.J.) =o convento; Bensafrim de Ben Sakhrî (?) =  nome próprio; etc.

Realidade a ter em conta quando se investiga as origens do topónimo Barão.

Na povoação de B.S.J. a presença dos árabes pode ser atestada tanto pelo topónimo Alcântara, (a poente da povoação) que em árabe significa a passagem ou ponte, como pelo achado de silos subterrâneos, para cereais, no Cerro do Mouro nas proximidades da Escola Primária, segundo o testemunho oral que recolhemos.

É por outro lado muito curioso descodificar outros topónimos nas proximidades de Barão de S. J. que nos dão conta de uma mesma realidade : - a pluviosidade durante o Inverno.

Vejam-se alguns exemplos que de comum tem as consequências resultantes da água da chuva: - Lagoacho (B.S.J.);  Lagoa da Rosa (B.S.J.); Pego de Todo o Ano (B.S.J.);  Ribeira dos Lagos (B.S.M.); Vale de Água (B.S.M.); Ponte dos Lagos (B.S.M.) etc.

Analise-se em particular 2 topónimos que são bastante demonstrativos dessa realidade: Ribeira dos Lagos (Barão de S. Miguel) e Pego de Todo o Ano (Barão de S. João).

 

 

 

 

Ribeira dos Lagos – Segundo Silva Lopes em 1841, na Corografia: - “... Em Barão de S. Miguel...corre uma ribeira (...) que de Inverno engrossa bastante com as agoas da chuva...”. como sugere o topónimo esta linha de água, afluente da ribeira de BSM ( Vale Barão), de Inverno, alimentava o curso de água que ao transbordar formava lagos/ lagoas.

 

Pego de Todo Ano – Pego: significa o lugar mais fundo de uma ribeira, lago. lagoa etc. onde não se tem pé. Constata-se assim que a água acumulada de Inverno, neste lugar, durava todo o ano, ficando registado no topónimo a influência da pluviosidade no lugar, num período alargado (todo o ano).

 

Segundo Rosa Varela Gomes 10 : - “...Muitos dos cursos de água existentes nesta região (Bensafrim) secam durante os meses de maior calor e, de Inverno, com as chuvas, enchem e transbordam, adquirindo fortes torrentes que causam, por vezes, cheias,  ...”

Assim de  acordo com  o significado do topónimo Barão em árabe  e as referências no século XIX a formação de lagoas em Barão de S. Miguel e Barão de S. João terá sido devida tanto pela pluviosidade que escorria pelas encostas e aumentava o caudal das ribeiras como pela morfologia do terreno junto às localidades 11.

Por isso é muito provável que as populações aflitas, dos lugares onde haviam inundações sazonais, tenham pedido protecção a S. Miguel e S. João dedicando-lhes templos em sua honra no século XVI.

Invocações protectoras que acabaram, depois do século XVI, agregadas aos topónimos, uma vez até aquela época as localidades foram designadas por Baranito e Barão.

Segundo a Igreja Católica S. Miguel tem as suas festividades em Maio e S. João em Junho, meses consecutivos que deverão ter sido determinantes no dia a dia das povoações.

Sabe-se, por outro lado, que a estagnação das águas tanto das enxurradas que inundavam os campos, como das águas paradas dos cursos de água foi outrora um sério risco para a saúde das populações. Veja –se o caso da Ribeira da Raposeira/Vila do Bispo que segundo o testemunho de Silva Lopes em 1841: -”... mette muita agoa no Inverno (...) as agoas que transbordão e ficam estagnadas no verão em alguns sítios (lagoas?) fazem esta povoação doentia...”

Ou o caso de Aljezur em que as águas paradas da Ribeira  tornaram a parte antiga da Vila insalubre, levando o Bispo a construir uma nova Igreja – a Igreja Nova – fazendo assim surgir um novo núcleo urbano mais saudável.

O que , por paralelo com esses lugares do Barlavento Algarvio, nos leva a deduzir que em Barão de S. Miguel, de terrenos agrícolas pobres, em Maio, se pedisse protecção a S. Miguel para que as  inundações( lagoas) do Inverno não destruíssem as sementeiras  e que em Barão de S. João , o sapal(lagoa/charco/ pântano) que refere Pinho Leal em 1873, durasse até Junho/S. João, e que por essa  altura as populações receosas das águas paradas e dos mosquitos gerados pelo calor,  pedissem a S. João protecção tanto para as colheitas , como para as doenças transmitidas pelas águas estagnadas.

Constatações e hipóteses que convergem no sentido de se interpretar as origens do topónimo Barão na palavra árabe para lagoa.

 

 

 

 

1 – Bahron -segundo Frei João de Sousa – “Vestígios da língua arábica em Portugal” prefácio de A. Farinha de Carvalho

2 - citando João Baptista da Silva Lopes – Corografia (...) - 1841

3 – de: - Bur dar sahn  (?)

4 - de: - al bir / al bur

5 – de: -  al-quariâ - “...No Barlavento pervive com frequência o topónimo Alcaria, que deve estar relacionado com a existência de antigas povoações islâmicas, como o lugar da Alcaria, ou ruínas de

S. Leonardo, no concelho de Albufeira. De facto, a toponímia actual usa para povoação abandonada

a palavra derivada do árabe al-quariâ, significando aldeia vila ou pequena povoação...” Rosa Varela Gomes -  SILVES (Xelb) Uma cidade do Gharb -Al Andaluz: Território e Cultura - pág.  140 –  IPA – Documento PDF

6 – “..Pensamos, no entanto, que as torres atalaias tiveram grande importância durante a permanência

islâmica na região, pelo facto de não só integrarem a estratégia defensiva(...), como por muitas delas poderem, de igual modo, ter funcionado como fachos...” Rosa Varela Gomes -  SILVES (Xelb) Uma cidade do Gharb -Al Andaluz: Território e Cultura - pág. 137 – IPA – Documento PDF

7 - de: -  al madan

8 – de: - al- marj

9 - de: -  zawya

10 –Rosa Varela Gomes -  SILVES (Xelb) Uma cidade do Gharb -  Al Andaluz: Território e Cultura - pág. 56 – IPA – Documento PDF

11 – Significativamente constata-se que os  vestígios arqueológicos  muçulmanos inéditos da alcaria  em BSM estão localizados no alto de uma colina, com cerca de  60 m de altura  na confluência de várias linhas de água  e que os terrenos à volta  tem um desnível inferior médio  de +/-  30 metros ( cotas entre 17 e 30 metros) de condições propícias a cheias ou lagoas após as inundações. 

   

 

 

 

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