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António José de Jesus Martins1

 

Os Primórdios da Expansão Portuguesa

O Infante D. Henrique e Ceuta – 1415 e Gil Eanes e o Cabo Bojador - 1434

  

No âmbito da problemática dos Descobrimentos Portugueses e das suas múltiplas consequências no plano nacional e internacional, temos que destacar dois períodos cronológicos fundamentais na História da Fase Henriquina dos Descobrimentos Portugueses. 

Quando o Infante D. Henrique nos localizou o seu Cabo do Mundo, em Sagres, tomamos conhecimento que os limites da sua contemporaniedade geográfica e cristã se situavam no estremo sul do Reino do Algarve. Para além de Sagres nada mais era conhecido e os limites do Mundo cristão para os homens dos inícios do século XV localizavam-se no extremo Sul de Portugal, embora havendo o conhecimento de algumas regiões Asiáticas e do comércio terrestre com o seu incremento, sobretudo a partir das Repúblicas Italianas.

A Europa Atlântica e a cristã secular tinham conhecimento da existência de outras regiões de forma deturpada mas, com uma certeza clara: os outros povos tinham semelhanças com os Europeus.

Com a conquista de Ceuta em 1415, novos horizontes foram abertos, sobretudo na perspectiva da presença portuguesa no Norte de África. Presença que, como sabemos teve as suas consequências no plano interno e externo de Portugal, ao longo de três séculos, terminando a presença portuguesa no Norte de África, com o abandono da praça de Mazagão, no Sul de Marrocos (hoje El-Jadida) no ano de 1769, no reinado de D. José I.

 

 

Temos, portanto, em 1415, o início da expansão portuguesa. Expansão iniciada pelo Norte de África e consecutivamente alargada a outras localidades do litoral Marroquino.

Se Ceuta constitui a primeira etapa de um longo processo de expansionismo, sobretudo pelo Norte de África e pelo litoral Marroquino, a verdade é que com a passagem do Cabo Bojador em 1434, por um lacobrigense – Gil Eanes -, Portugal e o Algarve conheceram uma nova realidade geográfica e que os levaria a passar outros Cabos, com especial ênfase o Cabo das Tormentas em 1487, com Bartolomeu Dias. Aberta a passagem do intitulado Cabo da Boa Esperança, chegaria à Índia, no ano de 1498, Vasco da Gama e em 1500, com Pedro Álvares Cabral dar-se-ía o achamento do Brasil.

Se a partir de Lagos, (no reino de D. João I) no ano de 1415, se dera o início dos Descobrimentos Portugueses, foi com a chegada a Macau (no reinado de D. João III) no ano de 1553 que Leonel de Sousa, um algarvio de Silves, estabelece o limite temporal desta fase da História de Portugal.

Se as balizas cronológicas estão localizadas para o início e fim do encontro dos Portugueses com outros Povos e Culturas, será que no âmbito do expansionismo português, sobretudo em África (entre os séculos XV e XVI) Portugal teve a ajuda e colaboração de gente, que não sendo portuguesa, contribuiu para o expansionismo português?

Vejamos o caso da Alemanha. Melhor dizendo, do espaço linguístico alemão do Sacro Império Romano-Germânico e aos seus habitantes, uma vez que, e num dizer de Wilhelm von Humboldt, “No fundo a verdadeira pátria é a língua” 2.

Durante o século XV são muitos os exemplos de casos de alemães que em Portugal participaram na empresa dos Descobrimentos Portugueses. Em 1415, quando da conquista de Ceuta, participaram na mesma, muitos combatentes germânicos. O mais conhecido de todos foi o poeta Oswald von Wolkenstein, denominado O último trovador que descreveu o modo como os mouros fugiram da cidade 3.

Nomes como os dos cavaleiros Georg von Ehingen e Georg Ramseider também podem ser nomeados. No caso do primeiro, após a sua chegada a Ceuta, em 1456 foi-lhe dado o cargo de comandante de um aquartelamento e mandaram-lhe homens para comandar, entre os quais havia muitos que falavam e compreendiam o baixo alemão 4.

Para o século XVI, apontamos outro exemplo interessante de estrangeiros ao serviço da expansão portuguesa, é-nos dado pela presença de mercenários Suíços e Alemães, designados de homens a pé, por oposição aos cavaleiros 5, assim como também se destacaram os Italianos como especialistas em fortificações.

Particularizando geograficamente, e para o Reino do Algarve, apontamos o caso de um navegador denominado Pedro Alemão que participou em 1445 numa expedição à costa africana, sendo morador da então Vila de Lagos. Se era Alemão ou se seria detentor dessa alcunha, o cronista Azurara nada nos salienta em concreto 6.

A presença do infante D. Henrique no reino do Algarve muito contribuiu para o incremento das suas gentes e do desenvolvimento da Região. É com o seu impulso que a denominada Fase Henriquina dos Descobrimentos Portugueses criará as raízes e orientará todo um percurso que mais tarde fará com que os Portugueses e a valorização dos algarvios como parte integrante de um só País, tornará Portugal numa Nação ao Encontro de outras Culturas e Povos, ao longo de três séculos.

A Expansão Portuguesa para além dos vectores da nacionalidade e da cristandade, deu a conhecer os valores da Europa e do Mundo Ocidental. Portugal com o Infante D. Henrique abriu as portas a um País que deu um dos maiores passos da Humanidade: O conhecimento de Portugal.

Com Gil Eanes, o Algarve foi reconhecido além-fronteiras e a sua gente valorizada pela sua lealdade ao País. Como exemplo disto registe-se o que ficou escrito nos Capítulos Especiais de Tavira, cujo procurador nas Cortes de Lisboa de 1455 trouxe para o seu concelho vários deferimentos, podendo observar-se num deles a seguinte expressão em relação aos algarvios: por verdadeiro amor como Leais, e verdadeiros portugueses.

 

 

1Mestre em História Medieval pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto

webpage em: www.historialgarve.com

2 in Marion EHRHARDT, A Alemanha e os Descobrimentos Portugueses, Texto Editora, Lisboa, 1989, p9. Cit. Wilhelm Von Humboldt: Carta a Charlotte Diede, 21.8.1827, in Briefe na eine Freudin, 12ª ed., Leipzig, 1891, p.236.

3 Idem, ibidem, p.14.

4 Idem, ibidem, Cit Georg Von EHINGEN, Itinerarium..., Augsburg, 1600; trad. In. E. A.STASEN e Alfredo GANDARA, Oito Séculos de História Luso-Alemã, Berlim, pp. 51-65.

5 in Robert LETAN, Azzemour et Mazagan, Deux places fortifiées marocaines au XVI Siècle, 1996, pp. 53-53

6 in Rui LOUREIRO, Lagos e Os Descobrimentos – até 1640, Câmara Municipal de Lagos, 1991, p. 106.

 

 

Referências Bibliográficas

Bibliografia Específica

 

Fontes Documentais

Arquivo Histórico Municipal de Tavira - Reforma dos Tombos, fls. 30v-33

Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Chancelaria de D. Afonso V, Livro 15, fl. 143v.

Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa - Cód. 402 (Azul), fls. 63-67 v.

 

Bibliografia Geral

Marion EHRHARDT, A Alemanha e os Descobrimentos Portugueses, Texto Editora, Lisboa, 1989.

Robert LETAN, Azzemour et Mazagan, Deux places fortifiées marocaines au XVI Siècle, 1996.

Rui LOUREIRO, Lagos e Os Descobrimentos – até 1640, Câmara Municipal de Lagos, 1991.

José António de Jesus MARTINS, Lagos Medieval, V.R.S.A., 2002

 

 

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