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por Francisco Castelo
Que se passa com este país à beira mar plantado? À beira desse mar imenso repetidamente admirado e evocado pelos poetas e profusamente cantado no Fado? O nosso País tem uma das mais vastas Zonas Económicas Exclusivas da Europa. A ZEE é uma das zonas consideradas na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (conhecida como Lei do Mar). Nesta zona que pode ir até 200 milhas marítimas (350km), a partir da linha da costa o estado marítimo tem direitos e obrigações. A importância da ZEE prende-se principalmente com interesses económicos ligados aos recursos pesqueiros e geológicos e ao seu valor turístico, espólio arqueológico e de natureza ambiental, num plano, e a questões geoestratégicas e de segurança interna noutro plano. É nessas áreas económicas, para além da pesca, que Portugal deve apressar-se a explorar tirando partido da proximidade com a massa oceânica que o priveligia em relação a outros países. Até porque no que toca às pescas a Europa prepara-se para permitir a actividade das frotas dos outros estados membros na zona compreendida entre as 200 e as 12 milhas da ZEE de Portugal continental, e até às 50 milhas da ZEE dos Açores e da Madeira. E que faz Portugal no momento? Dorme na formatura. Assim mesmo. Pois outra coisa não se pode deduzir deste desleixo a que essa riqueza maior, o Mar, tem sido votada. Os cursos superiores na área das Ciências do Mar registam fraca adesão, por falta de divulgação junto dos jovens, mas também por falta de saídas profissionais, que a iniciativa privada tarda em promover. E igualmente por falta de visão estratégica dos governantes que neste caso particular teriam que fazer avançar o Estado em substituição da dinâmica empresarial privada, pois que é fundamental, imperioso e urgente marcar posição, ocupar o espaço, criar sinergias. E isso continua a não ser feito. Finquemos os pés na terra, sim. Mas este País não é só feito de terra. Devido à sua situação geográfica Portugal tem, ainda tem, um dos maiores espaços marítimos da Europa. “Enquanto atravessam os mares, muitos navegadores vêem sobretudo o mar que lhes está à frente. Mas também os há que se perguntam com o que se parecerá o fundo escondido pelas águas. Será que, enquanto cruzava o Atlântico, Colombo imaginou que por debaixo da quilha lhe desfilavam das mais extensas planícies, acidentadas cordilheiras e profundas fossas do Mundo?” (F. Tempera). A importância dos oceanos é, actualmente, inequivocamente reconhecida em vertentes tão fundamentais como o Clima, a exploração dos recursos vivos e minerais, o controlo da poluição no mar, e tem levado a uma progressiva consciencialização destas problemáticas por parte dos governos e das organizações internacionais. Neste sentido foi instituído pela Resolução do Conselho de Ministros nº 89/98, o Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias do Mar. Os frutos começam agora a surgir com a definição dos objectivos da Comissão Estratégica dos Oceanos que, em síntese, propõem: valorizar a associação de Portugal ao oceano como factor de identidade; assegurar o conhecimento e a protecção do oceano; promover o desenvolvimento sustentável de actividades económicas; assumir uma posição de destaque e especialização em assuntos do oceano; construir uma estrutura institucional moderna de gestão do oceano.
Navio Hidrográfico/Oceanográfico "D.Carlos I". Moderna unidade naval ao serviço da investigação científica. “As saídas profissionais para os especialistas na área da Oceanografia são principalmente em carreiras de ensino e/ou investigação, em Institutos do Estado e em Universidades. Para além disso, as empresas de consultadoria no domínio das obras costeiras e do ambiente, que fornecem pareceres para trabalhos de engenharia costeira, hidráulica, fluvial e portuária, para a exploração, gestão de recursos minerais e recursos vivos, etc., dão um bom número de oportunidades de emprego para estes especialistas. Há ainda que contar com os empregadores do sector público (autarquias, etc.) ligados à qualidade da água, aos portos, actividades de recreio aquáticas, etc. Finalmente, deve-se notar que, dada a natureza globalizante da Oceanografia, a comunidade oceanográfica tem uma acentuada índole internacional, o que confere oportunidades aos especialistas nesta área para trabalho de investigação e consultadoria para além das fronteiras nacionais. Por outro lado, esse aspecto, complementado pela utilização da mesma língua e pela existência de grandes afinidades culturais, leva a recomendar fortemente este programa de formação avançada aos nacionais dos Países de Língua Oficial Portuguesa.” (in http://www.io.fc.ul.pt/fisica/educ/msc/mestrado.htm). Com tudo isto em marcha, é caso para perguntar: Porque registou o Curso de Oceanografia da Universidade do Algarve apenas duas inscrições para o presente ano lectivo? Estamos a desperdiçar tempo e oportunidades. Aliás, basta ver o que acontece numa área ainda mais vasta, a das Ciências da Terra (que engloba as Ciências do Mar): «“Na última década, a comunidade científica internacional, fez imensa investigação na área da geofísica e da geotectónica da Margem Sul Ibérica e Golfo de Cádis, mas as universidades não podem fazer tudo”. É o balanço de Miguel Miranda, investigador do Centro de Geofísica da universidade de Lisboa, numa crítica implícita à actual falta de investimento nas Ciências da Terra por parte do poder político. “Basta ver o estado de anemia em que vivem os laboratórios do Estado nesta área”…Estudar mais de perto os processos geradores da forte sismicidade que caracteriza esta região é uma prioridade e também uma das ideia-chave saídas da conferência internacional “250th Anniversary of the Lisbon Earthquake”… Outras são a prevenção anti-sísmica e o investimento numa cultura de risco… Esta zona na origem de 1755 é talvez a mais importante no Atlântico para a geração de grandes tsunamis também». (Filomena Naves in DN 2005-11-05). Ora, basta a pertinência destes temas para percebermos quão fundamental é esta área do conhecimento e quão importante é investir nela. Não esquecendo, claro está, a riqueza económica subjacente ao aproveitamento dos variados recursos marinhos. Vamos sensibilizar os jovens para as coisas do “nosso” Mar, para as temáticas dos oceanos, rumo a um futuro cheio de potencialidades e possibilidades de êxito ou vamos continuar a dormir na formatura? Vamos ultrapassar o poético OLHAR O MAR e avançar para um concreto e coerente VIVER O MAR?!
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