ÍNDICE DE ARTIGOS

1. Marés Negras - Alerta ao Perigo no Algarve - 2003

2. Os Métodos de Datação em Arqueologia - 1998

 

 

por Francisco Castelo


 

MARÉS NEGRAS

ALERTA AO PERIGO NO ALGARVE

 

A possibilidade de ocorrência de um acidente ambiental na zona costeira algarvia deve ser uma preocupação real pois, quando acontecer, terá um impacto devastador para a região.

As consequências de um acidente desta natureza numa região que vive do Turismo, como é o caso do Algarve, podem ser catastróficas. Um acidente que tenha como cenário a zona do Cabo de S. Vicente p. ex., será um verdadeiro desastre em termos ambientais e sócio-económicos, especialmente se ocorrer durante a época estival. Aos efeitos directos somar-se-iam as repercussões sobre as actividades económicas não directamente dependentes do Turismo como a pesca, a aquacultura, os desportos náuticos, em suma, toda a vida económica da região seria posta em causa.

São enormes as pressões que a sociedade hodierna exerce sobre o ambiente. Antes de prosseguirmos com o tema titulado, analisemos alguns dados relativos à problemática da poluição das águas, numa perspectiva mais abrangente.

A Poluição das Águas

A maior parte dos poluentes atmosféricos reage com o vapor de água na atmosfera e volta à superfície sob a forma de chuvas, contaminando, pela absorção do solo, os lençóis freáticos.

Nas cidades e regiões agrícolas são lançados diariamente cerca de 10 biliões de litros de efluentes que poluem rios, lagos, lençóis subterrâneos e sistemas marinhos.

Os oceanos recebem boa parte dos poluentes dissolvidos nos rios, além do lixo dos centros industriais e urbanos localizados no litoral. O excesso de material orgânico no mar leva à proliferação descontrolada de microrganismos, que acabam por formar as chamadas "marés vermelhas" - que matam peixes e deixam os mariscos impróprios para consumo.

Exemplos de poluição da água no mundo

Na Grã-Bretanha cerca de 1 milhão e meio de litros de esgoto são descarregados todos os dias para o mar através de condutas ao longo da costa. Além disso, aproximadamente dois milhões de toneladas de lixo tóxico são descarregados para o mar todos os anos.

As baleias Belugas que vivem nas águas do rio S. Lourenço, no Canadá são as únicas baleias de água doce do mundo. São brancas e tóxicas. Os perigosos produtos químicos que se têm vindo a acumular no rio durante os últimos 40 anos são transferidos ao longo da cadeia alimentar para as Belugas. Os tecidos das baleias contêm tais concentrações destes químicos que, segundo a lei canadiana, aos seus corpos tem que ser dado o destino especial dos lixos tóxicos.

Desde 1940 os Estados Unidos acrescentaram 70.000 novas substâncias químicas ao ambiente. Estas, encontram o seu caminho para os solos, água e... para a nossa alimentação. Ninguém está a salvo, todos somos vítimas da poluição.

As indústrias dos Estados Unidos geram cerca de 40 milhões de toneladas de detritos tóxicos por ano, 90% dos quais, segundo as estimativas da E.P.A. (Environment Protection Agency), são inadequadamente libertadas no ambiente (sem o devido tratamento). Os EUA não são os únicos. Há muitos outros países industrializados produtores de substâncias tóxicas.

Estima-se que a água potável dos EUA tem 2100 químicos tóxicos potenciadores de cancro, mutações celulares e problemas nervosos. As centrais de tratamento existentes não estão preparadas para remover os novos químicos tóxicos, e estes actuam mais rapidamente do que as decisões de regular e fiscalizar as taxas de contaminação.

A poluição dos mares

As principais áreas de preocupação são as que se encontram próximo de terra e de aglomerados habitacionais. O lixo da sociedade tornou-se uma praga para a vida marinha.

As tartarugas marinhas e as baleias ingerem sacos de plástico, que tomam por medusas, provocando-lhes a morte por asfixia. As aves marinhas ingerem pequenas bolas de polietileno que flutuam à superfície do mar; as aves sentem-se fartas e isso impede-as de se alimentarem adequadamente.

Nas ilhas Aleutas, no Pacífico Norte, a população de focas tem diminuído 10% ao ano, não devido à caça ou à diminuição das reservas de peixes, mas por serem apanhadas por cintas de embalagem e por tiras plásticas que mantêm unidas as latas de bebidas.

Anualmente, um milhão e meio de quilómetros de redes de pesca de "nylon" são lançadas ao mar e cerca de 100 quilómetros de rede acabam por perder-se, presas aos fundos, ou à deriva em meia-água. Essas redes continuam a "pescar", sem governo. Capturam e provocam o afogamento de tartarugas, focas, aves, golfinhos e baleias. Devemos ainda citar o caso do despejo de metais pesados no mar, altamente tóxicos para os seres vivos, que têm a tendência de se acumular nas cadeias alimentares, aumentando a sua concentração a cada estágio.

Desde há muito que os peritos marinhos argumentam que todos os novos compostos lançados nos rios e nos mares deveriam ser considerados potencialmente letais.

E eis-nos chegados a um dos mais preocupantes tipos de poluição, o que propusemos em tema: anualmente, cerca de um milhão de toneladas de óleo espalha-se pela superfície dos oceanos formando uma camada compacta de difícil absorção.

Exxon Valdez

As Marés Negras

A poluição a que nos referimos é causada por hidrocarbonetos e outros produtos perigosos. Podem provir de acidentes marítimos tais como encalhes, afundamentos e abalroamentos de petroleiros e de outros navios que transportem cargas de hidrocarbonetos (crude, derivados de petróleo, nafta), combustível próprio ou mercadorias perigosas ou poluentes. Podem ser resultado de despejos deliberados: hidrocarbonetos oriundos da lavagem de tanques dos petroleiros; despejos de lastro, lavagens dos tanques de combustível, resíduos de combustível, águas das cavernas poluídas por hidrocarbonetos por qualquer tipo de navio ou então fruto de operações de imersão de resíduos produzidos em terra.

As conhecidas "marés negras"  resultantes de grandes derrames provenientes de acidentes são a face mais mediática, e as suas consequências são conhecidas de todos: as  imagens de aves cobertas de crude são tristes ex-libris do século XX, bem como os nomes de navios associados a esses desastres, como o Amoco Cadiz (França, 1978) ou o Exxon Valdez (Alaska,1989).

 

 

Os impactos sobre as comunidades marinhas são variados. Interferência na passagem dos raios luminosos, perturbando a actividade fotossintética do fitoplâncton, além de intoxicar directamente os microorganismos produtores.

A difusão do oxigénio do ar para o mar é também afectada (e vice-versa). E os efeitos seguem-se: desde a mortalidade de indivíduos por sufocamento físico, à contaminação química que inclui toxicidade, carcinogénicidade, interferência em processos biológicos e bioacumulação.

Toda a cadeia é afectada: plâncton,  moluscos, crustáceos, aves, mamíferos. Os hidrocarbonetos causam o desaparecimento de populações mais sensíveis, provocam mudanças nas comunidades marinhas e a sua fixação nos sedimentos prolonga os efeitos da poluição durante vários anos após os derrames.

 

 

No que concerne à actividade humana, os impactes sociais e económicos no turismo e actividades recreativas, na indústria, pesca, aquacultura, portos e marinas podem ser arrasadores para algumas comunidades.

A  grande maioria dos hidrocarbonetos derramados é proveniente de descargas operacionais (como lavagens de tanques). Essas descargas, na maioria das vezes intencionais, que atingem as costas de forma reduzida ou dispersa são difíceis de detectar (e sem meios aéreos ou de satélite, quase impossíveis), ficando a larga maioria dos infractores por conhecer e penalizar.

 

O acidente com o “PRESTIGE” lembra que

o Ambiente não tem Fronteiras 

Portugal é um País essencialmente marítimo, a imensidão das águas sob jurisdição portuguesa não deixam esquecer que é a maior ZEE da União Europeia. Caricatamente, a dimensão do problema poderá vir a diminuir (artificialmente), com a redução da ZEE nacional, por imposição da União Europeia, o que parece prestes a acontecer.

Prestige

Em Portugal sucederam-se, desde 1974, mais de 90 incidentes de poluição marítima; 20 originaram contaminação do litoral e 4 foram grandes derrames. O último grande  acidente aconteceu em Porto Santo com o navio Aragón em 1989 derramando 30.000 toneladas de petróleo bruto.

Se na direcção dos grandes centros industriais os petroleiros vão carregados e constituem um risco em termos de acidentes, é sobretudo quando voltam lastrados que ocorrem mais descargas operacionais.

A costa portuguesa é particularmente sensível, não só pela falta de vigilância, mas porque os navios que se dirigem para o Mediterrâneo e não efectuaram descargas para estações de tratamento aproveitam para fazer tais descargas na nossa costa.

Em termos de tráfego marítimo a  Zona Económica Exclusiva de  Portugal é atravessada por algumas das mais movimentadas linhas de tráfego Atlântico.

Não há neste momento dados concretos, actualizados e disponíveis sobre o tráfego marítimo em Portugal, mas existem estimativas que apontam para uma média de 100 navios/dia a passar ao longo da costa continental ou cerca de 400 embarcações na  ZEE portuguesa num determinado momento.

O grosso do tráfego no atlântico nordeste faz-se na linha mais junto à costa que atravessa os Esquemas de Separação de Tráfego (EST - corredores “virtuais” que ordena o tráfego marítimo em sentidos diferentes em zonas com muito tráfego, para evitar colisões) do Cabo da Roca, Cabo de S. Vicente, Largo das Berlengas.

A análise dos fluxos mundiais de petróleo mostra que muito do tráfego de crude passa ao largo da costa portuguesa. Estima-se que cerca de 12 petroleiros cruzam por dia a ZEE Portuguesa, passando principalmente junto à costa continental, transportando 30% do crude mundial. Estes  factos levam a qualificar a zona como “de alto risco permanente de ocorrência de incidentes graves de poluição marítima com origem em navios”.

Face à gravidade desta questão é, pois, preciso prevenir os acidentes, combater o oportunismo e desrespeito dos derrames intencionais e preparar planos de acção para fazer face a emergências. Para o grupo ambientalista GEOTA, são urgentes as seguintes medidas:

- melhor articulação e comunicação entre os intervenientes no Plano Mar Limpo (PML);

- implementação do sistema de cooperação regional preconizado pelo Acordo de Lisboa; reforço das inspecções feitas pelo Estado do Porto, e também pelo Estado de Registo (de bandeira), para que se garanta que os requisitos emanados pela IMO e pela UE, nomeadamente, referentes à construção, manutenção e operação dos navios, formação/treino e segurança das tripulações, e protecção do meio marinho;

- fiscalização mais rigorosa aos navios registados em Estados, cujos registos se sabe pertencerem às chamadas bandeiras de conveniência;

- total implementação da regulamentação relativa à vigilância costeira através de meios electrónicos (VTS). É urgente que Portugal termine o trabalho já iniciado. É necessário termos presente que só é possível afastar o tráfego marítimo das nossas águas (nomeadamente os esquemas de separação de tráfego - EST - de Cabo de S. Vicente, Cabo da Roca e Berlengas) caso o referido sistema de vigilância seja operacionalizado;

- implementação de corredores de tráfego especiais para navios que transportem produtos perigosos;

- implementação de PSSA’s (Particulary Sensitive Sea Areas - Zonas Marinhas Particularmente Sensíveis). Esta é uma das medidas preconizadas pela IMO como forma de manter o transporte marítimo afastado de áreas sensíveis;

- implementação dos tratados internacionais relativos à protecção e conservação do meio marinho, sobretudo os que visam o estabelecimento de sistemas de cooperação regional e internacional com vista à prevenção e ao combate à poluição marinha.

  25 DEZ. 2002 - Praia do Porto Mós - Lagos

milhares de nódulos de nafta e algumas aves mortas deram à costa.

 

É hora de acordar!

As consequências de um acidente deste tipo numa região virada para o Turismo, como é o caso do Algarve, podem ser catastróficas.

Ao invés de outro tipo de acidente a que estamos sujeitos, o meio marinho não poderá ser reabilitado com a mesma facilidade com que se fazem replantações de pinheiros ou eucaliptos, após a devastação dos incêndios florestais.

Este artigo teve por base as seguintes fontes: 

“A poluição da água” - Rafael Barros - Ciência Hoje. 

“PRESTIGE” lembra que o Ambiente não tem Fronteiras - GEOTA – grupo de estudos de ordenamento do território e ambiente. 

Dados do InfoZEE - O Sistema de Informação para a Vigilância e Gestão da Zona Económica Exclusiva - Joanaz de Melo; Francisco Andrade; Pedro Gonçalves; Pedro Santana; Pedro Leitão; João Piedade; Joaquim Rocha Afonso.

 

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OS MÉTODOS DE DATAÇÃO EM ARQUEOLOGIA

 por Francisco Castelo

 

Um dos maiores problemas que se coloca à compreensão do cidadão comum a respeito da Pré-História radica na incredulidade deste quando se referem factos ocorridos há dezenas ou centenas de milhar de anos, evocando uma escala temporal que para ele não faz sentido. Procurando evitar uma linguagem demasiado técnica e científica vamos tentar transmitir os aspectos mais importantes deste assunto relacionado com a escala do tempo, apresentando algumas técnicas a que os investigadores recorrem para determinar aquelas idades remotas, com tantos e impressionantes zeros à direita. Esperamos, deste modo, contribuir para o esclarecimento acerca da fundamentação das periodizações históricas, tantas vezes baralhadas pela imaginação popular e pelos asnos de Hollywood que, frequentemente, misturam Aztecas, Neandertais e dinossauros.

a importância da periodização em história

 

Uma grande parte do trabalho dos arqueólogos consiste em estabelecer uma cronologia, e para isso recorriam, antigamente, apenas a métodos de datação relativa. Estes baseavam-se no facto de que se os terrenos não tinham sido revolvidos, a camada mais próxima da superfície seria a mais recente. Desta forma era possível calcular a idade das últimas camadas e também dos fósseis nela encontrados. Mas estes métodos não eram exactos, há muitas zonas do planeta onde não existem sedimentos e há zonas onde os terrenos sofreram falhas e outras transformações. O avanço do conhecimento das origens do homem só é possível devido ao melhoramento dos métodos de datação. Antes de se chegar ao processo de datação absoluta a margem de erro era muito grande e por vezes levava os especialistas a enganarem-se.

Em Inglaterra, no princípio do século, um paleontologista amador anunciou que tinha descoberto um crânio de um antepassado do homem. Este facto agitou o mundo científico de então e os especialistas em particular. Só passados quarenta anos se aperceberam que se tratava simplesmente de um crânio de um homem moderno, ao qual um indivíduo pouco escrupuloso tinha adaptado o maxilar de um orangotango. Naquela época os cientistas não dispunham de meios muito seguros para procederem à investigação. Felizmente, hoje, podemos contar com métodos de datação absoluta, sendo mais comum o do Radiocarbono ou Carbono 14 (C14).

Na arqueologia a datação dos objectos, ossos ou instrumentos tem uma importância enorme, pois é com base nesses dados que é feita a maior parte da reconstituição da pré-história.

A Intuição de um dos pais da bomba atómica Willard Frank Libby, permitiu que a Ciência encontrasse um meio eficaz para estudar o passado, através do Carbono 14. Libby demonstrou que as substâncias radioactivas se formam devido ao constante bombardeamento pelos raios cósmicos e descobriu que quando esses raios atravessam a atmosfera atingem os átomos de azoto. Esses atómos de azoto perdem um protão e ganham um neutrão ao mesmo tempo que se transformam em Carbono 14 radioactivo. O C14 liga-se imediatamente ao oxigénio do ar e dá origem ao dióxido de carbono. É na forma de dióxido de Carbono radioactivo que o C14 se encontra na Natureza, as plantas são as primeiras a absorvê-lo, durante a fotossíntese, e incorporam-no nos seus tecidos, é assim que todos os seres vivos que consomem plantas absorvem o C14.

equipamento para técnicas de radiocarbono

 

Os átomos de C14 são instáveis e desintegram-se, isto é, convertem-se espontaneamente em azoto. No entanto, durante a vida de um organismo os átomos de C14 contidos nos tecidos são constantemente renovados através da respiração e da alimentação. Quando o organismo morre os átomos desintegram-se, o seu valor mínimo desce para metade em cada 5730 anos, assim, medindo a quantidade de C14 que se encontra num osso por exemplo, e comparando-o com a de um ser vivo similar, os especialistas conseguem calcular o tempo decorrido desde a morte do organismo.

A quantidade de C14 contida numa amostra pode ser calculada de duas maneiras: - combustão da amostra para a transformar em C12, o qual é seguidamente reduzido ao estado de gás monóxido de carbono, de novo por combustão, e a sua introdução, misturado com dióxido de carbono extremamente purificado, num contador de gás proporcional. O uso de um solvente, como o benzeno, permite utilizar um contador de cintilações. Desta forma tem sido possível obter medidas muito exactas para datar exemplos com cerca de 70 mil anos; - o segundo processo, chamado Espectometria de Massa por Aceleração, permite contar os átomos de C14 directamente, em vez de medir a proporção de elementos radioactivos. A maior vantagem desta técnica é que permite datar amostras que contêm pouco carbono, na verdade precisa de mil vezes menos carbono do que os medidores de radioactividade habituais.

Quando os arqueólogos necessitam determinar a idade de objectos que contêm pouco carbono, como por exemplo a cerâmica ou os utensílios de sílex pré-históricos, recorrem à Termoluminescência em vez de considerarem o desaparecimento de um elemento radioactivo como o C14. Para determinarem a idade de um objecto por este processo, calculam as radiações a que esteve sujeito ao longo dos anos (p. ex. um utensílio de sílex foi submetido a dois tipos de radiação, a emitida pelos próprios elementos radioactivos contidos no sílex e a radiação do solo onde esteve enterrado desde que foi utilizado pelo homem pré-histórico), estas radiações afastam os electrões dos átomos do mineral mineral de que é composto o sílex, os electrões são capturados pelas fendas estruturais do mineral e vão-se acumulando nestas “armadilhas” ao longo dos anos. Quando o utensílio é aquecido a uma temperatura de 500 graus Celsius, os electrões cativos libertam-se imediatamente e emitem uma enorme luminosidade chamada termoluminescência. É por este método que se determina a idade dos utensílios de sílex e, graças a ele, podem datar-se objectos de há cem ou trezentos mil anos, ultrapassando assim o limite da aplicação do método de datação pelo C14.

equipamento para Termoluminescência

 

O trabalho dos investigadores não se limita à datação de fragmentos de sílex, esse é apenas um dos passos de um trabalho mais complexo e vasto cujo objectivo é propor um modelo global sobre as condições de vida que existiram no passado. Para atingir esse objectivo estudam também as condições climáticas que se sucederam ao longo do tempo no nosso planeta. Todos estes conhecimentos permitem compreender melhor a razão pela qual algumas espécies animais e vegetais foram favorecidas em detrimento de outras.

os anéis de crescimento de uma árvore

 

Um dos métodos mais eficazes para conhecer o tipo de clima é a Dendrocronologia, uma ciência que estuda o crescimento das árvores. Um ano de crescimento corresponde a um determinado anel de Verão e um outro de Inverno. Facilmente observável num corte transversal do tronco, a espessura de cada anel permite identificar as condições climáticas mais ou menos favoráveis. Chegou-se a muitas conclusões através de estudos feitos numa variedade de pinheiro, o pinnus actisceta. Algumas espécies têm cerca de quatro mil anos, outros, já mortos, mas muito bem conservados permitem aos investigadores recuar oito mil anos.

análise dendrocronológica

 

Mas se quisermos informações sobre o clima de um período ainda mais remoto há outra disciplina científica indispensável: A Palinologia dedica-se ao estudo dos grãos de pólen que se acumulam em lagos, turfeiras ou estuários. Em condições favoráveis, os grãos de pólen das plantas com flor podem conservar-se quase indefinidamente. Estes grãos contém as células sexuais masculinas das plantas, levados pelo vento, pelos insectos e por outros meios, têm que encontrar as células sexuais femininas para que ocorra a fecundação. Os esporos desempenham a mesma função em relação aos cogumelos, aos musgos e aos fetos. Os pólenes e os esporos têm apenas alguns mícron, mas estão protegidos por um invólucro muito resistente aos agentes químicos e atmosféricos, permitindo aos grãos manterem-se em perfeito estado de conservação quando caem em lugares abrigados do contacto com o oxigénio. Os milhares de grãos e esporos que as plantas produzem anualmente são dispersos pelo vento nas áreas circundantes, quando caem integram-se nos sedimentos, ano após ano.

registo microscópico de grãos de pólen

 

Para conhecer a história da vegetação, o palinologista começa por recolher amostras do solo. Já no laboratório, extrai o pólen e através de um tratamento químico e das diferenças de densidade, retira partículas minerais e orgânicas das superfícies dos esporos e dos grãos de pólen, possibilitando assim a sua identificação ao microscópio. Uma análise estatística permite calcular as proporções relativas de cada espécie de plantas, e o tipo de vegetação obtido a partir da análise destes grãos permite recontituir o clima de determinado período ou região.

O conhecimento dos climas do passado baseia-se portanto no estudo dos grãos de pólen das comunidades vegetais e de factores climáticos como a temperatura e a precipitação. Assim, tendo como referência tudo quanto observam na actualidade, os palinologistas conseguem reconstituir peleoclimas e paleoambientes. O estudo palinológico de uma região proporciona-nos imensa informação, por exemplo a vegetação dominante nos períodos inter-glaciares era constituída por nenúfares e outras plantas aquáticas, depois apareceram as primeiras árvores, entre as quais o junípero e a bétula, o solo tornou-se cada vez mais rico em matéria orgânica e estas espécies pioneiras forma substituídas por comunidades arbóreas em que dominavam os carvalhos e as aveleiras, estas árvores prosperaram nas temperaturas médias que prevaleceram durante quatro ou cinco mil anos. Mais tarde, a descida da temperatura resultante de um novo período glaciar esteve na origem dos bosques de faias e abetos e, finalmente, com o aparecimento do homem as florestas foram, em grande parte, destruídas para dar lugar aos cereais.

Para além dos métodos referidos, Radiocarbono, Dendrocronologia e Palinologia existem ainda muitos outros que, tirando partido do avanço constante do conhecimento científico e das suas aplicações tecnológicas, vão substituindo rapidamente os métodos de datação relativa baseados sobretudo na Tipologia, Estratigrafia e Comparação Corológica, e permitindo uma decifração cada vez mais exacta do nosso passado remoto.

Alguns desses métodos de datação absoluta como o Paleomagnetismo (se conhecermos as variações do campo magnético – declinação, inclinação – de um dado lugar em todas as épocas, é fácil comparar com este quadro uma cerâmica de que se tenha determinado com precisão a orientação das moléculas), a análise dos Teores Químicos dos ossos, e os métodos do Urânio-Tório, Potássio-Árgon (o Potássio 40 desintegra-se durante um período de 1.400.000 anos, durante o qual liberta Árgon. A sua utilização permitiu datar de 1.750.000 anos os restos mortais do austrolopiteco das camadas mais profundas de Olduvai) e a Fissão Nuclear (a datação por fissão nuclear do urânio 238 permite ir até 4 ou 5 biliões de anos, ultrapassando de longe as possibilidades do C14 apenas aplicável a matérias orgânicas) permitem hoje, aos investigadores, datações superiores a 10 milhões de anos.

Outros métodos concorrem, também, para os estudos relacionados com a presença e o protagonismo da humanidade: Arqueomagnetismo, Hidratos de Obsidiana, Aminoácidos e Ultra-sons aos ossos (é um dado adquirido que a velocidade de propagação dos sons nos ossos decresce com a sua idade, segundo uma curva logarítmica. Por isso, podemos datar com auxílio dos ultra-sons ossos relativamente recentes, na prática, com menos de 1.000 anos, já que a velocidade do som diminui para metade depois de 500 anos e para três quartos somente após 5.000 anos).

pontas de setas em sílex

 

Em 1994 um grupo de espeleólogos descobriu na Serra de Montejunto vários esqueletos. Trata-se de uma necrópole do Neolítico, época charneira da Pré-História da humanidade, quando o homem passou de predador, de caçador-recolector a agricultor e a produtor. O conjunto dos testemunhos dessa comunidade de pastores e agricultores que há cerca de 5.000 anos habitaram a Serra de Montejunto e que no fim das suas vidas foram sepultados no Algar do Bom Santo é como a página de um livro que conta a história da ocupação humana da Península Ibérica, desde há meio milhão de anos. Para ler as páginas deste livro os investigadores recorrem, entre outras técnicas e processos, a alguns dos métodos de datação absoluta que acabámos de enunciar. Não obstante não se ter alcançado ainda uma precisão total nas datações, é inequívoco que estas técnicas e métodos permitem localizar no tempo, com apreciável margem de segurança, acontecimentos ocorridos há milhares de anos.

 

Fontes e obras consultadas:

“Usage de Methode de Datation par Thermoluminescence en Geologie du Quaternaire et Phehistoire” - D. Miallier/S.Sanzelle/J.Faïn

“Pré-História de Portugal” - Armando C. Ferreira da Silva/Luís Raposo/Carlos Tavares da Silva (Universidade Aberta)

“Terra Humana – O Algar do Bom Santo” – Paulo Costa - RTP 1995

 

 

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