O Convento das Carmelitas

(o Convento das Freiras) 

 

 

por José Carlos Vasques

 

 

Lagos, a terra de Maio não desmente o que a lenda diz das suas gentes. Sobretudo da sua ingénua bondade, ou outra coisa que lhe queiram chamar.

Hoje, está em causa um monumento que apresenta ruína e que deve, intransigentemente, ser recuperado, quer pelo seu valor arquitectónico quer pela sua história.

Conta a história que o Convento das Irmãs Carmelitas foi construído em 1554, no local onde existira uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição, no sítio da Pedra da Eira, uma das colinas de Lagos. A sua Igreja, assente em rocha, foi a parte do convento que menos sofreu com o terramoto de 1755, a outra parte do convento ficou arruinada e a sua reconstrução não repôs o conjunto tal qual era, segundo diz a tradição. As suas dimensões foram diminuídas sendo posteriormente ampliadas pelo seu lado Norte conforme se pode verificar pelas construções que ocultaram os cunhais1 do antigo traçado.

Foi sempre caso difícil deslindar a quem pertence o Convento, ou quem foram os seus legítimos proprietários. Os conventos de Lagos, que foram cinco: Mosteiro da Província da Piedade ou dos Franciscanos ou, ainda, de Nª Sª da Glória; Convento de Santo António, o mais antigo e esquecido; Convento de S. João de Deus, que serviu de hospital militar; Convento da Trindade ou dos Frades Trinos; e o Convento das Freiras Carmelitas. Para uma terra tão pequena, cinco conventos, é obra. Assim se dizia. E ainda podíamos referenciar um outro, que deu origem ao dos Franciscanos: o de Nossa Senhora do Loreto, de que resta uma “capela-fonte” no Rossio de S. João.

Após a sangrenta luta fratricida, que opôs liberais a miguelistas, de que Lagos tanto sofreu, veio a ser publicada, em 1834, a Lei que extinguiu os conventos.

Hoje, não se questiona a quem pertencem os conventos, sendo excepção o Convento das Freiras. Mas, este também foi vendido, conforme atesta a história de Lagos.

 

Quem ler, com isenção, a Monografia de Lagos (de Manuel João Paulo Rocha), e outras publicações sobre a nossa história, não terá qualquer receio em reproduzir aquilo que lá está escrito. Deus é misericordioso e não o levará para o inferno, sobretudo por dizer a verdade.

“O Governo vendeu o Convento com a cerca, no dia 3 de Setembro de 1844 a António de Almeida Monteiro, pela quantia de 1.702$00 réis, com a exclusão da portaria2, sala destinada para as audiências do tribunal judicial e baixa da varanda grande por estarem cedidas à Câmara e às ordens dos Passos, Carmo e S. Francisco.”, “ A parte pertencente à Câmara foi cedida pela mesma Câmara ao Governo, por escritura lavrada na secretaria da Mencionada Câmara a 25 de Junho de 1906 para aqui se instalar a Escola Industrial Vitorino Damásio, mas com a condição de reverter para o Município de Lagos, com todos os melhoramentos que o Estado ali fizer, logo que deixe de servir para os fins para que foi cedida.”, “Em 3 de Julho de 1862 foi aforada a parte do extinto Convento das Freiras, necessária para a construção do Teatro Gil Vicente.”

Uma parte deste Teatro foi construída sobre antigas celas das freiras. Nalgumas dessas celas, ainda existentes, moravam pessoas em extrema pobreza.

O último proprietário do restante Convento e cerca foi um João Manuel de Almeida, conhecido pela alcunha “O Surdo”. Este cultivava a cerca e entrava na igreja e no convento como em casa sua. Assistia ao culto, quando tinham lugar as procissões do Senhor Morto e ao Sermão, duma janela gradeada, existente ao lado direito da capela-mor. Nos baixos da sacristia, uma dependência com porta para a Rua João Bonança, alojou algumas instituições como o CNE (Corpo Nacional de Escutas), como o atesta a tabuleta ainda lá existente.

Por volta dos anos 40, ainda se realizaram alguns espectáculos no claustro do Convento, com grande aceitação pública, como foi a Festa das Costureiras.

Uma parte do Convento foi, ainda, usada como abrigo de crianças desvalidas: o Patronato, como era conhecido na altura.

A igreja foi caindo em grande degradação3 e o golpe de misericórdia foi a oficina de escultor que lá funcionou. Pior não podia ter acontecido para a arte sacra que ornamentava a igreja. Recuerdos para “amantes” da arte – mais, não se diz.

Todos os nossos monumentos religiosos - por falta de uso do culto para que foram destinados - caíram em ruínas, mas sempre aparece dono para eles.

Benesses é uma palavra muito bonita. Mas, meditar, é que é preciso.

 

 

1 – O Convento está muito ligado à História de Lagos. Foi muito arruinado pelo terramoto de 1755, em que morreram 11 freiras e 11 criadas. O arcebispo-bispo do Algarve D. Fr. Lourenço de Santa Maria mandou-o reconstruir.

2 – Esta portaria é hoje a porta da entrada principal da Escola Secundária Gil Eanes.

3 – Uma das últimas reparações feitas no Convento consistiu na edificação duma parede de tijolo na igreja, separando a nave central, do coro das freiras. Esta obra foi executada pelo construtor José Rosário Bago d’Uva e pelo Eng. Joaquim Alves Pereira, para evitar o colapso do arco que separa o conjunto.

 

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