Pescadores, monges, soldados
e naufrágios:
a arqueologia das Berlengas

por Alexandre Monteiro*
As
Berlengas são um arquipélago localizado a cerca de 6 milhas de Peniche, formando
três grupos de ilhéus que englobam a Berlenga Grande e os seus recifes
adjacentes, as Estelas e os Farilhões.
As ilhas integram a Rede Nacional de Áreas Protegidas, constituindo Reserva
Natural desde 1981. Mas o arquipélago não é só um lugar inóspito onde habitam
apenas algumas espécies animais e vegetais. É também um lugar com história tendo
sido óbvio ponto de paragem e de abrigo desde a mais remota antiguidade, cenário
obrigatório da lendária rota das Cassiterides, cuja tradição remonta à Idade do
Bronze - segundo alguns historiadores, teria até havido na ilha um santuário
fenício dedicado a Baal-Melkart.
A época romana
Apesar dos mitos sobre a perigosidade da navegação para além do Estreito de
Gibraltar, está implícita nos testemunhos dos geógrafos e historiadores da
Antiguidade a evidência de uma navegação de rotina ao longo da costa atlântica
da Península Ibérica tanto mais que as excelentes qualidades náuticas dos navios
de tradição mediterrânica da época romana - designadamente dos próprios navios
de carga de grande tonelagem - permitiam-lhes remontar ao vento, bolinando em
condições que os levavam a navegar, vindos do Mediterrâneo, para além do cabo de
São Vicente.
Esta capacidade é mesmo atestada pelo facto curioso que coloca Júlio César a
desembarcar nas proximidades das Berlengas. Com efeito, no ano de 61 a.C., César
teria, em perseguição de um contigente de lusitanos da Serra da Estrela,
acampado ao largo de uma ilha onde estes finalmente se refugiaram. Uma primeira
tentativa de invasão da ilha, através de balsas artesanais construídas pelo
exército romano, falhou redondamente e apenas Publio Escevio líder da expedição,
escapou à matança infligida pelos lusitanos entrincheirados na ilha. Perante o
desastre, César mandou vir de Cádiz uma frota de algumas dezenas de navios
mercantes que embarcaram, em finais de Agosto, os cerca de 18 mil soldados do
então Governador da Hispania Ulterior. Desembarcados na ilha, os romanos
submeteram, sem travar combate, os revoltosos acossados pela falta de víveres.
Resta a dúvida sobre se a ilha em causa seria as Berlengas ou a própria Peniche,
na altura ainda separada do continente, embora a maioria dos investigadores se
incline mais para a primeira hipótese.
Testemunho irrefutável da presença romana, o mar das Berlengas apresenta
actualmente o maior conjunto, proveniente do meio marítimo português, de ânforas
conhecido - no que tem, aliás, um complemento imediato nos achados de cepos de
âncora em chumbo.
Com efeito, entre 1984 e 1988 foram recuperadas cerca de uma dúzia de ânforas
romanas, a sudeste do Carreiro do Mosteiro e a cerca de 23 metros de
profundidade. Destas salientamos duas ânforas do tipo Dressel 1, a típica ânfora
vinária itálica datável de cerca 130 a.C., bem como algumas Lusitanas - tipos 2
e 4 - de envase de produtos piscícolas, compreendidas entre a primeira metade do
século I e os finais do século II e deste até aos finais do século V,
respectivamente. Em todo o caso, o tipo Haltern 70 – datável de um período
compreendido entre os meados do século I a.C. e os meados do século seguinte -
surge como o mais bem representado, correspondendo a cerca de 50% das ânforas
registadas.
Complementarmente aos achados de ânforas, foi localizada uma vintena de cepos de
âncora em chumbo - habitualmente atribuídos à época romana quando, na realidade,
se considera hoje que a sua utilização se terá generalizado a partir do século
IV a.C. – a maioria dos quais recuperadas de uma zona, ao largo, definida pela
área compreendida entre o Carreiro do Mosteiro, a Fortaleza, o Melreu e a
enseada de Flandres.
Alguns destes cepos apresentam motivos decorativos, nomeadamente ossinhos em
relevo em duas faces alternadas dos braços - alinhados no lance da sorte
representam o talus, o jogo mais popular da Antiguidade, com um significado
augural e auspicioso - e golfinhos – protectores dos navegantes e salvadores dos
náufragos, símbolo por excelência da navegação tranquila.
Curiosamente, um dos grandes cepos recuperados na Berlenga possuía ainda alguns
fragmentos da alma de madeira, o que permitiu determinar por radiocarbono o
período da sua manufactura. A sua datação – compreendida entre os finais do
século V e o início do século IV a.C. – faz com que este cepo pré-romano seja o
mais antigo cepo de âncora conhecido de toda a Antiguidade podendo mesmo fazer
recuar a data em que se pensava ter ocorrido a generalização do uso de cepos em
chumbo no Mediterrâneo.
O período moderno
Que a ilha era escalada frequentemente por marinheiro, não restam dúvidas, tanto
mais que, no ano de 1513, os Monges da Ordem de São Jerónimo criaram na ilha -
por proposta de Frei Gabriel à sua confessada, a rainha Dona Maria, esposa de
Dom Manuel - o Mosteiro das Berlengas, com invocação de Nossa Senhora da
Misericórdia. O Mosteiro foi fundado pela lembrança que a rainha teve de que
aqueles monges poderiam ser úteis aos navegantes quando estes ali desembarcavam,
não só por acharem quem lhes pudesse administrar os sacramentos mas também para
poderem ouvir os ofícios divinos.
Pouco tempo se conservaram na ilha os monges. Entre os motivos apontados para a
curta permanência da ordem, encontrava-se não só a escassez de alimentos – por a
terra produzir pouco e o mar ser muito bravo, estando muitas vezes privados de
quem os abastecesse – mas também por, repetidas vezes, a ilha ser acometida por
piratas barbarescos e turcos. Mesmo descontando estas ocorrências singulares, os
frades morriam amiúde “com doenças, sem terem que os curasse e caindo pelos
rochedos” - curiosamente, os testemunhos orais que davam como certa a existência
de despojos humanos associados ao local de implantação do Mosteiro, puderam ser
confirmados o ano passado com a recolha de materiais osteológicos humanos
descontextualizados.
Não se sabe ao certo em que ano foi o Mosteiro abandonado mas julga-se que foi
em 1545, ano em que os doze frades das Berlengas se passaram para Vale Benfeito,
no continente. Deixado ao abandono, o Mosteiro caiu em ruínas, sendo a sua
cantaria do utilizada mais tarde na construção da fortaleza de São João Baptista
Esta primeira tentativa de ocupação permanente da ilha poderá ter tido
antecedentes com a construção, em 1502 e também por iniciativa de D. Manuel, de
uma fortaleza. Esta fortaleza, aparentemente mandada reparar mais tarde por D.
Sebastião, não terá assumido grande porte já que, com o incremento das incursões
de piratas argelinos comandados por renegados europeus, pelo Atlântico dentro,
Filipe II de Espanha ordenou a construção de novas fortalezas costeiras, entre
as quais se contava uma na ilha das Berlengas. Aparentemente, a sua construção
foi demorada, já que 14 anos após a Restauração, os mesmos piratas derrubaram a
tiros de bombarda as muralhas ainda incompletas existentes na ilha.
Em todo o caso, só com D. João IV se terá dado à tarefa a importância devida,
com a ida à ilha de João Rodrigues de Sá em 1651. A construção, realizada pelo
engenheiro régio Mateus do Couto, desenvolveu-se sobre um ilhéu - ligado à ilha
por uma ponte em alvenaria, sobre arcadas - havendo ainda lugar à construção de
um pequeno ancoradouro, do lado norte. A planta é octogonal irregular, com as
casamatas adossadas à muralha exterior, virada a terra, e com o paiol localizado
no corpo prismático central.
Sentinela isolada e solitária, a sua grande hora chegou em 1666, quando quinze
navios de uma armada espanhola, sob o comando do almirante D. Diogo de Ibarra,
procuraram conquistar a fortaleza e apossar-se das Berlengas, no propósito de
interceptar a frota francesa que trazia para Portugal a noiva de D. Afonso VI,
D. Maria Francisca Isabel de Sabóia.
Após dois dias de combate, os 22 soldados portugueses comandados pelo cabo
António Avelar Pessoa, tinham morto cerca de 500 espanhóis, afundado um navio e
danificado seriamente outros dois. Quando os portugueses ficaram sem munições e
sem comida, Ibarra conquistou a ilha e mandou destruir o forte. Face ao valor
estratégico da Fortaleza, novas obras de beneficiação foram empreendidas, sob a
direcção do Marquês da Fronteira, sendo concluídas em 1678. A fortaleza serviu
mais tarde como local de desterro e também como pouso secreto de sabotadores
ingleses durante as invasões napoleónicas. Descobertos, os franceses ripostaram,
novamente arruinando o edifício, tendo Dom João VI ordenado a sua reconstrução
em 1822. Em 1833, a fortaleza foi ocupada, sem grande resistência, pelas tropas
liberais, que fizeram dela o ponto de apoio para a conquista da cidadela de
Peniche.
O potencial arqueológico do arquipélago
À semelhança do que ocorre com a ilha do Pessegueiro - em que escavações
arqueológicas mostraram uma ocupação romana compreendida entre os séculos I e IV
d.C. - é de supor que um território deste tipo, a uma distância confortável da
costa e rica em recursos naturais, tenha atraído pescadores que se estabeleceram
na ilha de uma forma mais ou menos permanente, à semelhança do que ocorre hoje
em dia. Com efeito, na escavação arqueológica conduzida no ano passado pelas
arqueólogas Jacinta Bugalhão e Sandra Lourenço, do Instituto Português de
Arqueologia, foram encontrados, não só vestígios do Mosteiro, como também - e
algo surpreendentemente - materiais arqueológicos romanos, em quantidade,
qualidade e diversidade tipológica e cronológica (República, Alto e Baixo
Império) que sugerem uma ocupação, se não continuada no tempo, pelo menos
frequente. A presença de material de construção, nomeadamente tegulae, poderá
indiciar a existência de estruturas construídas no local, em cota mais elevada,
preservadas ou não.
Já no que respeita a achados subaquáticos - para além das bocas de fogo
assinaladas junto à fortaleza e a um esplêndido berço em bronze de tipologia
manuelina, recuperado em 1982 e a 25 metros de profundidade por uma equipa do
Museu do Mar de Cascais – destacam-se os vestígios da Antiguidade, nomeadamente
ânforas e cepos.
Não é possível estabelecer com segurança as razões das perdas dos cepos
descobertos nas Berlengas, tanto mais que a maioria dos fundos onde os achados
se verificaram não é de molde a justificar, aparentemente, perdas por prisão ou
retenção. Naturalmente, nestas condições, a hipóteses de provirem de naufrágios
parece aliciante, mas até à data nenhuma evidência arqueológica permite ainda
fundamentar esta hipótese.
Quanto às ânforas – que, enquanto carga de barcos nos permitem aferir
cronologias por associação entre vários tipos e variantes de ânforas ou com
outros materiais datáveis, assim como rotas de tráfico marítimo - estão muito
longe de ter a importância de que à primeira vista se poderia pensar. Com
efeito, trata-se de materiais de associação duvidosa e até mesmo de localização
imprecisa, numa disposição consistente com existência de um fundeadouro milenar.
Por outro lado, se esta relativamente “elevada” taxa de localização de ânforas e
cepos de chumbo é justificável por a Berlenga ser uma das áreas do país mais
frequentada por mergulhadores amadores – facto naturalmente propício a uma maior
frequência de descobertas - isso não impede que seja colocada a hipótese de se
estar em presença de vestígios de naufrágios. Tal hipótese poderá ser
corroborada pelo facto de existir, percentualmente, uma grande concentração de
ânforas do tipo Haltern 70 a indiciar um naufrágio datável de cerca do século I
a.C. e até por terem existido cepos muito próximos uns dos outros, nas
proximidades dos quais foram achados fragmentos de cerâmica.
Mas, mais uma vez, esta hipótese perde consistência pela até não verificação da
existência de madeirame e pela dispersão dos achados, o que parece apontar para
que as Berlengas tenham sido, antes como agora, uma concorrida zona de abrigo,
de escala e de espera de condições de navegação propícias, para além de, como é
óbvio, haver ainda uma zona de ancoradouro no apoio ao povoado insular.
O que não quer dizer que não existam mais naufrágios, para além dos
referenciados neste artigo. Estamos em crer que o potencial arqueológico desta
ilhas é imenso. Para tal contribuem as boas condições de preservação dos fundos
arenosos, a relativa profundidade, a navigabilidade perigosa destas paragens –
se em pleno século XX, ocorreram tantos naufrágios, por força maior ocorreriam
muitos mais nos séculos antecedentes – e o relativo desconhecimento dos fundos
em volta. Quem sabe que surpresas nos reservará o próximo mergulho nas
Berlengas?
Para saber mais:
ALVES, F. et al (1989) Os cepos de âncora em chumbo
descobertos em águas portuguesas – contribuição para uma reflexão sobre a
navegação ao longo da costa atlântica da Península Ibérica na Antiguidade. In
O Arqueólogo Português, série IV. Vol. 6/7.
ALVES, F. (1994) Os dois cepos de âncora em chumbo
pré-romanos da ilha Berlenga. Relatório. Lisboa: Centro Nacional de
Arqueologia Náutica e Subaquática
BANDEIRA, L. (1984) “Berço Manuelino” recuperado ao largo das
Berlengas. In Série Arqueológica, vol. 1, Museu do Mar. Cascais: Câmara
Municipal de Cascais.
BUGALHÃO, J. & LOURENÇO, S. (2001) Ilha da Berlenga, Bairro
dos Pescadores: relatório dos trabalhos arqueológicos. Relatório interno.
Lisboa: Instituto Português de Arqueologia
DIOGO, A. (1999) Ânforas provenientes de achados marítimos na
costa portuguesa. In Revista Portuguesa de Arqueologia, 2:1. Lisboa:
Instituto Português de Arqueologia.
FERREIRO LOPEZ, M. (1988) La campaña militar de Cesar en el año
61. In MENAUT, G. ed., Actas del 1º Congreso Peninsular de Historia Antigua.
Santiago de Compostela: Universidad de Santiago de Compostela.
SANTOS, J. (1994) As Berlengas e os Piratas. Lisboa:
Academia de Marinha
TRINDADE, J. (1985) Memórias Históricas. Lisboa:
INCM/Câmara Municipal de Óbidos.
* Arqueólogo Subaquático
Se o presente artigo despertou a sua curiosidade para as coisas
da arqueologia subaquática, aconselhamos vivamente a visita a: http://naufragium.blogspot.com/
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