Acerca da Escrita

do Sudoeste

 

 

por Francisco Castelo

 

Assumidamente leigo na matéria, ainda assim ouso aventurar-me em breve incursão pelos meandros da Epigrafia motivado, principalmente, em lançar um repto aos investigadores que estudam as inscrições pré-romanas da Península Ibérica, nomeadamente a Escrita do Sudoeste (c. 800 a. C.).

A Escrita Ibérica agrupa diversos alfabetos utilizados pelas populações indígenas da península durante os últimos séculos que precederam a era cristã. Cada povo (Turdetanos ao Sul, Lusitanos a Oeste, Iberos a Este e Vasconços a Norte e Nordeste) tinha a sua cultura, a sua civilização, a sua escrita. Os ensaios de decifração tentados em diversas épocas desde o séc. XVI, permitiram identificar vários alfabetos idênticos, que apresentavam traços da escrita grega e de antigas escritas itálicas. Porém, para muitos investigadores do séc. XX , algumas destas escritas nada devem aos influxos fenícios ou púnicos, nem às escritas itálicas. E a discussão persiste.

Numa consideração assaz superficial sobre o estado do estudo de tão interessante temática e sem preocupações fundadas em teorias ou soluções propostas para a decifração dessa escrita, quer no que toca à sua pertinência, ao maior ou menor rigor científico ou ao reconhecimento e aceitação académica, nomeio os mais destacados ou mediáticos investigadores desta área: os irmãos António e José Costa Bastos; Augusto Ferreira do Amaral; Carlos Alberto Castelo; Manuel Gomes Moreno; Aemil Hübner; Caetano de Mello Beirão; Mário Mendonça Frazão; António Navarro; Francisco Sande Lemos; Adolf Schulten; Ulrich Schmoll; Virgílio Hipólito Correia, entre outros.

Referenciando as interpretações diferenciadas propostas por dois destes investigadores, para a inscrição da Estela da Fonte Velha (Bensafrim), pretendo evidenciar as dificuldades que subsistem na obtenção de um consenso criptográfico entre os epigrafistas.

Reiterando a minha condição de leigo ouso, ainda, colocar mais esta questão que me parece pertinente e que reflecte a incontornável interrogação suscitada pela constatação da inequívoca semelhança entre duas escritas, separadas espacialmente por milhares de quilómetros: a escrita do sudoeste peninsular ibérico e a escrita do sudoeste da península itálica, o etrusco. Que relação de parentesco existe entre ambas?

O alfabeto etrusco foi utilizado entre os séculos VII e II a.c. por um povo cuja língua é de origem desconhecida e de difícil tradução. A civilização etrusca, formada na Toscânia, atingiu o seu apogeu no séc. V, sofrendo o seu declínio entre os séculos IV e I a.C., na sequência das invasões gaulesas e das conquistas romanas. Apesar desta língua não poder ser fielmente catalogada na família indo-europeia ou pré-indo-europeia, nem em nenhuma outra família linguística até agora reconhecida, o seu alfabeto é semelhante a um alfabeto grego primitivo utilizado pelos Dórios da Sicília. As condições desta transmissão não foram até hoje esclarecidas.

“O tabuleiro de Espanca (Castro Verde) é uma laje rectangular de xisto, que mostra um abecedário com vinte e sete signos, destinado a fins pedagógicos. Estes encontram-se dispostos, como na grande maioria das inscrições assinaladas, de modo sinistrorso e paralelamente ao bordo de dois lados contíguos. Importante descoberta para a compreensão da Escrita do Sul de Portugal revela, ainda, uma segunda linha de caracteres que, no mesmo sentido, repete de maneira incipiente e gravados com menos profundidade, os primeiros signos hoje perdidos devido a fracturas do registo original. Os eu paralelo mais próximo é o tabuleiro etrusco, em marfim, de Marsiliana d’Albegna, da primeira metade do séc. VII a. C., onde acompanhando um dos bordos se reconhecem vinte e seis grafemas. As formas dos caracteres do signário de Espanca são as mesmas utilizadas na epigrafia funerária, e idênticas às de alguns alfabetos gregos arcaicos, onde encontra sequências semelhantes” (in Mário Varela Gomes - Proto-História de Portugal, pág. 162 –, Universidade Aberta, 1992).

Considerando a multiplicidade e complexidade dos vários aspectos ligados a este assunto, deixo este repto: Não será altura de realizar um Congresso sobre a Escrita do Sudoeste, e Lagos não estará cultural e geograficamente posicionada para tal realização?

 

Tradução da Estela da Fonte Velha (Bensafrim) segundo os irmãos Costa Bastos:

 “O FORASTEIRO QUE FOI BASTÃO DOS SEPARADOS SAIU AO POÇO, A VER UM CAMPO, OUVIU GRUNHIDOS NO ALTO DA COLINA, A DA GRUTA QUE É ALI NO MERCADO, SUBIU ACIMA O EMPEDRADO, AFOGOU-SE NA POÇA DE AREIA DA POCILGA AGARRADO A UM PORCO ESCONDIDO NO NOSSO LIMITE NO MEIO DE GRITOS.”

 Tradução da Estela da Fonte Velha (Bensafrim) segundo Carlos Alberto Castelo:

 “LAMENTAMOS BEM ESTE NOBRE GUERREIRO RABEDD, NESTE LUGAR. LAMENTAMOS NA VERDADE UM HERÓI. AQUI O CELEBRAMOS. ELE DOOU A NÓS TODOS OS SEUS BENS AGRÍCOLAS E EI-LO AQUI (SEPULTADO).”