A Meia Praia é um topónimo que remete para a sua situação geográfica, dividida
que foi em duas metades pelo Rio de Alvor, uma para Lagos e outra para Portimão.
Outro nome que lhe queiram atribuir não é histórico nem correcto.
A praia de S. Roque situou-se entre os braços do delta da ribeira de Bensafrim,
cuja praia ficava entre essas duas barras, correndo um junto à cidade, tal como
hoje, e outro do lado nascente, infelizmente desaparecido devido ao
assoreamento. Deve essa praia o nome à ermida aí existente, dedicada a S. Roque,
construída em 1490 por milaneses e sicilianos que nesse local tinham o arraial
das armações de pesca. Esse espaço foi, até ao século XX, utilizado para apoio
às artes de pesca e outros fins relacionados (estaleiros, salgas de peixe,
fábricas). E nunca foi utilizado para habitações com ocupação permanente. A
ermida desapareceu, completamente destruída pelo terramoto de 1755.
A Meia Praia, que segue ao longo da curvatura da baía, numa extensão de cerca de
três quilómetros, até ao Rio de Alvor, está separada do terreno de suave declive
que a envolve como um anfiteatro, por um cordão dunar de destacada beleza. Há
muitos anos assim foi, e assim o viram os nossos antepassados.
O habitat rural da encosta virada a Norte, povoado por pequenas construções
rústicas dispersas pelo território, de apoio às actividades agrícolas, era rico
em vinhas, figueiras e amendoeiras, que constituíam a fonte do principal
rendimento agrícola da região. No intervalo dos arvoredos também se faziam
sementeiras de cereais e leguminosas, e assim se fazia um aproveitamento
integral do solo.
Numa estreita margem do areal, sem comprometer o sistema dunar, antes
protegendo-o, plantava-se a vinha que por sua vez era protegida dos ventos por
taludes de areia. As castas plantadas, de uvas muito gratas ao paladar, tinham o
valor da ocasião e da novidade, por serem as primeiras a surgir no mercado pois
era fruta temporã e de grande doçura. E a razão para tal prende-se, por um lado,
com o efeito de reverberação dos raios solares na areia, factor que abreviava a
maturação e, por outro lado a adubação protagonizada pelas algas arrostadas pelo
mar, à praia, de que os lavradores tiravam proveito.
A água, do solo, embora em pequena quantidade, está muito próxima da superfície,
não se podendo por esse motivo aprofundar muito os poços sob risco de se atingir
os níveis freáticos que recebem influência do mar e descobrir, assim, a água
salobra.
Podemos dizer que neste local se deu uma simbiose perfeita entre a terra e o
mar. A praia é única, diferente de qualquer outra. Possui um ecossistema que
encerra uma cadeia alimentar onde figuram crustáceos e peixes, mercê do seu
fundo arenoso e limpo e da sua água muito oxigenada pelo marulhar constante e
pelo ar puro proveniente dos campos próximos, onde não se instalaram indústrias
poluentes.
Com tais características o turista tem tudo a ganhar, salvaguardando-se, porém,
a necessidade de não estragar o que a Natureza aqui nos oferece.
Se olharmos com atenção para as cascas dos bivalves salta à vista a sua limpidez
vítrea, resultado da pureza do meio onde se criam e desenvolvem.
A Natureza não nos oferece só a paisagem, como também o alimento. Durante
séculos a humanidade retirou deste meio, mariscos para a sua alimentação, que a
praia sempre generosa, foi oferecendo. Um dos mais apreciados foi a conquilha
que, confeccionada com outros complementos, fazia a delícia dos mais exigentes
gastrónomos. O Conde de Lippe, quando em Lagos comandando o regimento desta
praça, sendo apreciador deste marisco incluía-o amiúde no rancho dos soldados,
daí subsistir, em sua memória, o termo “condelipa” que designa os tão famosos
bivalves.
Recordando este facto histórico, a Junta de Freguesia de S. Sebastião realiza,
anualmente, a Festa da Condelipa, contando com o apoio da Câmara Municipal e a
participação dos restaurantes locais.
É secular o lançamento de uma arte conhecida por Chinchorro. Consiste numa rede
de forma quase oval tendo no centro o copo, ou copejada, e nos lados os cabos
para a arrastar para terra. É lançada longe da terra, em mar um pouco fundo e
puxada para terra a força braçal. A composição da arte é semelhante a outras no
que se refere a bóias e aos pesos que a arrastam no fundo. Com a rede acabada de
depositar na praia o peixe é escolhido com destino à venda sendo algum
distribuído pelos que ajudaram na tarefa de alar.
O
Forte da Meia Praia
O único património histórico-arquitectónico existente na Meia Praia, e ainda não
classificado, é o Forte de S. José, e não de S. Roque, como erradamente é dito.
Tal equipamento militar foi mandado construir por D. Nuno da Cunha de Ataíde,
Conde de Pontével, nos anos de 1674 e 1675 quando, pela segunda vez, foi
Governador do reino do Algarve. A sua acção em Lagos foi de grande mérito, por
ter construído a casa da Câmara e na povoação da Luz uma muralha que cercava a
Igreja de N.S. da Luz e o espaço adjacente que serviu de cemitério. A acção
estratégica do Forte constituía a defesa do leste da baía de Lagos. Esteve
artilhado, primeiramente, com uma peça de bronze e duas de ferro prontas a
servir e uma de ferro, incapaz. O terramoto e consequente maremoto de 1 de
Novembro de 1755, ocorrido no dia de Todos os Santos, destruiu um quarto do
Forte, espalhando pedaços pelo areal. Em 1796 foram realizadas obras, e em 1821
esteve artilhado com três peças de ferro, tendo sido desartilhado em 1840.
Obsoleto para fins militares foi, em 11 de Julho de 1873, cedido à Câmara
Municipal de Lagos e depois entregue por esta autarquia à Alfandega de Lagos,
para ali instalar um posto fiscal, tendo posteriormente servido como posto da
Guarda Fiscal (in Fortificações da Praça de Lagos – Carlos Calixto - edição
CMLagos).
O terramoto e o maremoto foram violentíssimos. Numa descrição coeva refere-se
que o mar recuou e que se viram rochas na baía que nunca ninguém vira antes, nem
se sonhara, e que depois uma onda que tudo fazia tremer entrou terra dentro
levando tudo de vencida (tendo avariado gravemente o Forte que depois disso
conheceu apenas parcas reparações para garantir a sua modesta utilização). A
dita onda atravessou todo o sistema dunar e chegou até às fazendas. Outro
aspecto curioso refere-se ao facto de em tempos ter existido, no Forte, um poço
cuja água era muito procurada devido à sua excelente qualidade mas que mais
tarde se tornou inquinada devido à construção de uma retrete nas suas
proximidades.
Outro património interessante é a conhecida Quinta das Beatas que se julga ter
sido, como o nome sugere, um retiro de religiosas, com história ainda por fazer.
Anos após o terrível maremoto o areal da Meia Praia recuperou e o sistema dunar
ganhou grande beleza ao longo desse trajecto ao serviço da faina marisqueira do
rio de Alvor, tal como está referenciado em mapa de artilharia de 1791. Nos anos
de 1822 e 1823, João Baptista da Silva Lopes, emérito autor da “Chorographia do
Reyno do Algarve”, presidindo à vereação da Câmara Municipal de Lagos, mandou
plantar penisco numa faixa do areal procurando amenizar ou embelezar o ambiente
do areal. Os pinheiros cresceram, mas menos do que o desleixo dos vindouros, e
com a ajuda do gado caprino que por ali sempre foi apascentado, nem um exemplar
sobreviveu.
Em 1922 foi concretizada uma grande aspiração dos lacobrigenses, símbolo da
modernidade e importante instrumento de luta contra o isolamento, chegou a Lagos
a via-férrea e o comboio. Já desde 1912 que o farmacêutico Ribeiro Lopes,
Presidente da Câmara, lançara o imposto ad valorem de 1%, sobre as mercadorias
exportadas do concelho, justamente para constituir o fundo de garantia sobre o
empréstimo da Caixa Geral de Depósitos para concretização do tão almejado
projecto ferroviário. Trata-se de um dos gritantes casos da política nacional,
em que uma edilidade se substitui à administração central para implantar o
caminho-de-ferro. O tal empréstimo só foi extinto em 1960. O traçado final da
linha pela Meia Praia, segundo se supõe, foi uma alteração ao plano inicial. A
estação esteve inicialmente prevista para o Rossio de S. João, atendendo à
continuação do caminho-de-ferro com destino a Sagres. O Estado não quis suportar
qualquer verba, deixando esse ónus à Câmara Municipal. Dado tratar-se de uma
estação terminal verificaram-se outras obras para além da estação e da via: teve
que se proceder a um aterro para criação das infra estruturas e, para isso,
foram deslocados milhares de metros cúbicos de areia provenientes das dunas da
meia praia; o recinto de manobras do material circulante; casa para os
ferroviários; e a necessária rotunda para mudar o sentido do material circulante
(mais tarde é que a CP instalaria a placa giratória, ainda existente no barracão
isolado). Todas estas estruturas foram edificadas sobre o sapal, com
consequentes custos de aterro e terraplanagem. A ponte de acesso à estação foi
provisoriamente de madeira até ser construída a bonita ponte em betão armado que
terminaria os seus dias dinamitada para construção da marina de Lagos, uma obra
particular. A nossa estação de caminho-de-ferro é, segundo alguns apreciadores,
a mais bonita do Barlavento Algarvio. Vítima das especulações imobiliárias que
têm vitimado a própria existência do caminho ferroviário em Portugal, e alvo de
alterações que mexeram com a sua traça original, está hoje condenada a ser
substituída por algo que não se sabe bem o que é. Os apeadeiros do trajecto
desta via, como o da Meia Praia, condenados estão, ainda que servissem
condignamente o turismo interno e as gentes que habitavam nas redondezas, e
conferissem ainda um ar pitoresco e nostálgico à paisagem. Lá está a estação de
Odiáxere, numa degradação vergonhosa. As ditas “Estações Com Vida”, projecto da
REFER/INVESFER, não passam de certidões de óbito às próprias estações, enquanto
espaço de dinâmica natural mas específica, pois ao pretender animá-las com
dinâmicas de hiper-mercado não compreendem que desvirtuam o espaço e a sua
utilização, criando um artifício no uso do meio ferroviário desumanizado e
descaracterizado. Este apêndice da CP, denominado REFER, não é mais do que uma
apendicite grave para o universo ferroviário português.
Antes de Abril de 1974 já se equacionava a modernização da via-férrea do
Algarve, alargando-a a via dupla e electrificando-a. Nos três quilómetros de
praia, percorridos pelo comboio, o passageiro obriga-se a vir à janela, quando
chega de madrugada. O sol reverberando-se nas águas da baía e nas rochas a
poente confere um cenário deslumbrante, revelador dessa inolvidável beleza
natural que é a Costa D’Oiro.
A história da Meia Praia conta-se através de pormenores, afinal como todas as
grandes histórias que mais não são do que o somatório de inúmeros e pequenos
episódios.
Um dia, alguém remexendo na areia, encontrou dois dentes de elefante que logo
foram apresentados, como toda a coisa insólita, ao Dr. Formosinho, fundador do
Museu de Lagos. Tal achado esteve durante muitos anos ali exposto, sobre um
cavalete de ferro. O Dr. Formosinho entendia que qualquer objecto do seu agrado
também o seria dos visitantes, daí ter reunido uma impressionante e valiosíssima
colecção dos mais variados objectos.
Esta Meia Praia foi, também, palco de inúmeros naufrágios que, infelizmente, não
foram devidamente registados. Apenas os vestígios deixados os atestam. Há anos
ainda era visível o esqueleto de uma grande embarcação de madeira,
semi-enterrada, sem que ninguém soubesse indicar a sua origem. O marulhar das
ondas pouco a pouco apagou o testemunho dessa tragédia e hoje não resta qualquer
vestígio ao longo da praia.
Intimamente relacionada com o Rio de Alvor, a Meia Praia é o elo de ligação de
um interessante ciclo produtivo. Quando o mar está bravo o rio fornece e
sustenta, marisco para comer, e isco para pescar quando o mar amainar. Há
milénios que assim é. E este ciclo devia ser respeitado, acarinhado, preservado.
Toda esta zona é de uma beleza invulgar e como tal um poderoso atractivo aos
investidores imobiliários, gente que não observa qualquer respeito pelo ambiente
e pelos ecossistemas.
O Hotel da Meia Praia foi das primeiras unidades turísticas de Lagos. Situado
perto do Forte, na encosta, em local escolhido em resultado do micro-clima ali
detectado foi edificado em 1956, tendo conhecido posteriores alterações.
Infelizmente, a maior parte desta gente é mentalmente deficiente, pois pretendem
observar a Natureza encavalitados nas próprias belezas que pretensamente adoram
e que são o valor maior do seu empreendimento, e assim o estragam. Gente subtil,
como os paquidermes que ali terão deixado os dentes. As tais presas de marfim
exibidas no museu.
E eis uma cidade, um concelho, e as suas belezas e riquezas naturais submetidos
e dependentes de uma única ocupação, o Turismo. Uma actividade que pela sua
natureza nunca poderia ser mais do que complementar, assume-se como actividade
dominante, submetendo e subvertendo tudo e todos, agredindo a Natureza,
hipotecando e comprometendo o futuro desta comunidade. E ninguém percebe que se
trata de uma actividade, apenas, temporária. Um dia, num futuro mais ou menos
próximo, cessará. Entretanto, as actividades tradicionais e as ocupações
naturais próprias das comunidades, foram desactivadas e os seus dinamizadores
desmobilizados. E ninguém se preocupa com estes factos.
Mas nem tudo o que vem do passado, ou o que se fazia então, é perfeito e
ajuizado. É o caso das pessoas de antanho que usavam o areal da praia para aí
enterrarem animais que morriam. Não era só o mau cheiro e o aspecto lúgubre das
aves necrófagas, resposta da Natureza que tudo prevê, pois havia também risco
para a saúde pública.
Regressemos ao caminho-de-ferro e a mais alguns factos da sua história. Hoje
assiste-se ao progresso e a uma certa revitalização do meio ferroviário, mercê
da introdução do comboio de alta velocidade. Tudo o que respeite à modernização
e recuperação deste meio é ajuizado, pois ocupa menos espaço territorial do que
as auto-estradas, com menos custos financeiros e ambientais, menos manutenção e,
afinal, cobre, com as suas redes de evolução centenária, as longas distâncias
entre todos os países e os seus territórios interiores. Neste contexto, Lagos,
já servida pelo caminho-de-ferro pode um dia ficar integrada nesta rede de
transporte preferencial.
Antes da revolução de Abril de 1974 já se falava na electrificação da via e a
sua ampliação a via dupla. Lei antiga estabelecia o domínio territorial do
caminho-de-ferro numa faixa de trinta metros de extensão para cada lado do eixo
da via.
Alguns anos após a implantação do traçado pela Maia Praia, o Governo de então
vendeu em hasta pública uma avultada porção de terreno ao longo da via, com
início na Tapada do Cabral, até próximo do Forte da Meia Praia. Foi comprador o
capitão Josino da Costa. Ainda hoje se pode ver nos horários dos autocarros a
referência: Paragem Capitão Josino. O proprietário do terreno foi concedendo a
diversos interessados, rendas a longo prazo, de pequenas parcelas de terra
(areal) onde se plantaram grande número de vinhas, de excelente produção de uvas
de superior qualidade.
Durante muitos anos a Meia Praia foi palco de uma festa popular, tradicional e
espontânea: o Banho de 29 de Agosto. As gentes do meio rural, em grande número e
deslocando-se me toda a espécie de viaturas, assentava arraial no areal e, de
noite, banhavam-se no mar. Após o banho tinha lugar a ceia, a luz de candeeiros.
Seguindo-se um descanso e ao romper da manhã, o regresso a casa.
Perdem-se no tempo as origens desta celebração mas não deixa de ter várias
versões: referencias ao banho santo dos mouros que tem lugar nesta data; a data
da conquista de Aljezur por Paio Peres Correia (facilidade militar supostamente
devida à ausência da população, a banhos na costa); no Sotavento do Algarve é
celebrado nesta data, a mística religiosa do dia de S. João da Degola (degola de
S. João Baptista). Portanto tudo indica tratar-se de um banho santo, ou de
purificação. Lagos comemora com grande destaque esta data, numa iniciativa da
Câmara Municipal que reúne enorme quantidade de espectadores no evento
realizado, anualmente, na Praia da Solaria.
Não podia terminar esta breve crónica sem falar nos “índios” da Meia Praia.
Alguns anos antes de 1974, um grupo de gente laboriosa ligada ao mar,
proveniente de Monte Gordo, procurando uma melhoria de vida, instalaram-se na
parte leste do areal da Meia Praia. Construíram barracas de madeira com telhados
de junco, existentes nas dunas. Eram habitações muito improvisadas e sem
condições para viver dignamente. A escolha do local tinha a vantagem de estarem
perto do trabalho que consistia na apanha de marisco no Rio de Alvor e da pesca
na baía. Com a dinâmica revolucionária de Abril foi tomada a iniciativa de
construir habitações adequadas e assim se implantou nesse local o Bairro 25 de
Abril, que contou com algum auxílio do Estado mas, sobretudo, foi fruto do
trabalho colectivo das próprias gentes.
Zeca Afonso, que foi professor do ensino secundário em Lagos, fez uma canção em
louvor do esforço dessa gente na construção das suas habitações. Chama-se “Os
Índios da Meia Praia” e na voz do poeta e cantor exalta essa luta de cariz
popular, cívico e colectivo (também Bensafrim foi cantada pelo autor em “O
Pastor de Bensafrim”).
Hoje, sob pressões das dinâmicas turísticas, o Plano Estratégico de Lagos começa
a colocar em causa a continuação desse bairro popular, reflectindo acerca da sua
relocalização.
Aquela que foi a maior propriedade agrícola da Meia Praia está hoje convertida
num complexo turístico com campo de golfe, situado à beira do Rio de Alvor, numa
zona em que a Lei prevê protecção ambiental. Rica protecção, sim senhor! A
propriedade chamava-se Palmares.
Termino com uma frase feita que, por mais que seja repetida, não entra na cabeça
dos (i)responsáveis: “A NOSSA COMUNIDADE SÓ PODE TER SUCESSO NO FUTURO,
MANTENDO-SE NA ACTIVIDADE DO TURISMO, SE OBSERVAR O RIGOROSO CUMPRIMENTO DO TÃO
BADALADO DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO”.