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Intervenção Arqueológica no Largo de Santa Maria da Graça e na sua área envolvente a igreja, o cemitério e a muralha junto à Porta da Vila (Centro Histórico de Lagos)
pelos Arqueólogos: Marta Díaz-Guardamino, Elena Morán, Iola Filipe
No âmbito do Projecto Polis «Renovação Urbana da Cidade — Núcleo Primitivo», foi efectuada uma intervenção arqueológica no Largo de Santa Maria de Graça e na sua área envolvente, com o objectivo de minimizar o impacte das obras de renovação urbana sobre o património arqueológico, tendo em conta os vestígios subsistentes da Igreja Matriz de Santa Maria de Graça, do cemitério, bem como o tramo da cerca conservada no Largo. As referências escritas situam a construção inicial da antiga igreja no século XIV (1378) sendo a partir desse momento que a área circundante ao templo passou a utilizar-se como cemitério. As escavações não revelaram restos estruturais da antiga igreja preservados in situ. Apesar disso, registámos derrubes de troços de parede, azulejos de revestimento das paredes e cantarias que indiciam a possibilidade de que a localização do antigo templo corresponda ao local onde actualmente se levantam os edifícios que delimitam o Largo pelo seu lado norte.
Os trabalhos arqueológicos incidiram sobre o sector SE do cemitério, onde se registaram mais de 140 enterramentos. Os estudos preliminares permitem diferenciar pelo menos duas fases de uso do cemitério. A primeira corresponde aos séculos XIV e XV, quando os enterramentos eram realizados em fossas antropomórficas ou ovais, orientadas W-E, provavelmente no sentido do eixo maior da antiga igreja. Nesta fase, o cemitério estendia-se até á muralha medieval (século XIV), cujos alicerces se localizaram cerca de 8 metros afastados da face exterior do tramo da Cerca Nova que se conserva ainda no Largo. A segunda fase de uso do cemitério iniciou-se com a construção da Cerca Nova (século XVI-XVII) e manteve-se até ao século XIX, momento em que se desactivou o cemitério. Nesta segunda fase de uso, a Cerca constituiu a principal referência na articulação espacial e os enterramentos realizaram-se em fossas antropomórficas, rectangulares ou ovais, seguindo maioritariamente a orientação da Cerca Nova (SW-NE) e concentrando-se junto a ela.
A Igreja de Santa Maria da Graça, Igreja Matriz desde finais do século XVI, ficou arruinada com o terramoto de 1755. Na intervenção arqueológica documentaram-se no subsolo grandes e profundas fendas, que se julga terem sido provocadas pelo sismo e que foram depois preenchidas com os escombros da Igreja (troços das paredes, materiais construtivos, etc). Conforme relata Manuel João Paulo Rocha na sua Monografia de Lagos, de 1909, pouco depois do terramoto, o prelado Gomes Avelar empreendeu a reedificação da igreja com uma planta mais regular que a primitiva. Esta obra ficou sem financiamento e as meias paredes permaneceram em pé até 1893, ano em que a Câmara ordenou demoli-las, suprimindo definitivamente o cemitério, que já tinha sido previamente encerrado em 1867.
As escavações arqueológicas permitiram dissipar algumas dúvidas sobre a antiguidade do tramo SW da muralha que, no actual Largo de Santa Maria, enlaçava com o o baluarte da Porta da Vila. Supõe-se que por inícios do século XVI (1520), durante o reinado de D. Manuel I, se projectou a construção de uma Cerca Nova, abaluartada, cujo traçado permitia abranger toda a população de Lagos, agora instalada também para além da Cerca Velha. As obras foram iniciadas após 1544, no reinado de D. João III, sendo Diogo da Silva Alcaide Mor da cidade, mas sabemos pelas plantas desenhadas por Alexandre Massay, ao serviço do rei Filipe I de Portugal, que em 1621, ainda a obra estava inacabada.
A nova fortificação aproveitou parte da Cerca antiga, nomeadamente o pano de Nascente, e parte do tramo Sul, sendo que a metade Poente do pano Sul foi demolida por razões de pirobalística, a fim de conseguir cruzar o tiro entre o novo baluarte de Santa Maria ou da Porta da Vila e a Torre do Trem, da antiga fortificação medieval. Os dados arqueológicos indicam que na primeira metade do século XIX se escavou um fosso interior na Porta da Vila, cuja utilização foi breve, sendo rapidamente colmatado. Apesar da escassez dos dados, pensamos que a funcionalidade desse fosso pudesse ser defensiva, relacionada com as Guerras Liberais e com os ataques lançados à Porta da Vila.
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